Em outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta annos: sentia o cerebro moroso na digestão da theologia, andava enfastiado e triste. Acaso encontrou um camarada, sargento do mesmo regimento, o Torquato Nunes Elias, que andava a estudar para procurador de causas. Eram inseparaveis, identificaram-se n'uma intimidade de tasca e de alcouce. O Verissimo nunca mais abriu compendio nem o outro um processo. D. Agueda mandava regularmente a mezada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa.

Em 1836 appareceu no Algarve a poderosa guerrilha de José Joaquim de Sousa Reis, o Remexido, em S. Bartholomeu de Messines. Os dous ex-sargentos alvoroçaram-se com a noticia e resolveram apresentar-se ao formidavel caudilho. Verissimo pediu á tia uma quantia mais avultada para pagar as ultimas despezas do sacerdocio. A velha mandou-lhe o preço de uma vinha vendida e a sua benção. Os aventureiros partiram para o Algarve. O general recebeu-os nos braços, e deu-lhes divisas de capitães. Verissimo Borges escreveu ao pai, a dar-lhe parte do seu heroico destino: que advogasse a sua nobre causa na presença da tia Agueda, e lhe dissesse que elle não podia largar a espada vencida emquanto visse no campo brilhar o ferro de um realista. Que o general Sousa Reis estava destinado a repôr o snr. D. Miguel I no throno, ou ser o ultimo a morrer em sua defeza; que elle e um seu amigo e camarada tinham sahido de Braga juramentados a morder o pó onde cahisse o seu general. Que eram já commandantes de companhias, e tinham duas carreiras abertas—uma que levava á gloria, outra á sepultura,—que tambem era uma gloria morrer pela patria.

José Joaquim, o Remexido, era um bem figurado homem de trinta e oito annos. Nascera em Estombar, estudára para clerigo no seminario de Faro, e distinguira-se em perspicacia e subtileza na percepção das theologias. O amor inutilisou-lhe o talento applicado a um pacifico e humanissimo destino. Viu uma esbelta môça de S. Bartholomeu de Messines quando ahi foi prégar um sermão, sendo minorista. As serenas visões do levita deslumbrou-lh'as a formosa algarvia. Não hesitou entre o amor da humanidade e o culto egoista da familia. Casou, e de homem estudioso e contemplativo, volveu-se lavrador, lidou rudemente nas searas, e redobrou de esforços á proporção que os filhos lhe multiplicavam o amor e os cuidados.

Insensivelmente compenetrou-se da paixão politica. N'esta provincia, onde em 1808 estalou o primeiro grito contra o dominio francez, a liberdade proclamada em 1820 abriu um abysmo entre duas facções que por espaço de dezoito annos se despedaçaram. José Joaquim de Sousa Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas e as más idéas, e manifestou-se em 1823 um ardente sectario das más, perseguindo os affeiçoados á revolução do Porto. Em 1826 emigrou para Hespanha, e voltando em 1828 extremou-se entre os aclamadores do rei absoluto. D'ahi em diante, receoso das retaliações, não teve mais uma hora de remançoso contentamento nem abriu mão da espada tão affoita quanto cruel.

Logo que o duque da Terceira aportou com a divisão expedicionaria ás praias da Lagoa, em 24 de junho de 1833, Sousa Reis com alguns cumplices, foragiu-se nos reconcavos do Penedo Grande, cujas veredas montanhosas conhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flôr dos annos, inculpados das paixões de seu pai, fiados na generosidade dos vencedores e na propria innocencia. A vingança fez reprezalias na familia do fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa, depois do roubo e do incendio da sua casa de Messines. O leão, como se ouvisse bramir os cachorrinhos nas garras do tigre, irrompeu da caverna, precipitou-se dos penhascaes á frente da sua alcatéa, e atacou Estombar com irresistivel impeto. Estava ahi a sua familia sob a pressão das bayonetas que a vigiavam como armadilha á queda do guerrilheiro; mas a tropa não pôde resistir á furia de pai. Elle atirava-se ás descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho. Os inimigos que o viram n'esse dia conservaram longo tempo a lembrança da sua catadura transfigurada pela desesperação. E todavia era um homem gentilissimo. Depois, senhoreou-se de povoações importantes do Algarve e estendeu até ás fronteiras do Alemtejo os seus dominios. Moveram-se contra elle muitos regimentos de primeira linha e de batalhões da guarda nacional. Elle tinha adoecido de fadigas incomportaveis, e descançava com algumas centenas de homens n'um desfiladeiro da serra, chamado a Portella da corte das velhas. Ahi o atacou uma columna de caçadores 5. O Remexido, a final, faltou-lhe a coragem de se fazer matar. Viu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as bayonetas. Deu-se á prisão, e cinco dias depois era arcabuzado em Faro.

O regimento em que eram capitães o Verissimo e o Nunes dispersou, e elles, claro é, fugiram á maneira dos muito discretos e bravos generaes de que rezam os fastos militares.

O pret das guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatella ridicula, que não merecia a pomposa qualificação de ladroeira. Como não tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre nas algibeiras. É o que foi, e a historia não póde dizer outra coisa. Queria talvez o major de Villa Verde, o denunciante de Braga, que elles andassem á cata das praças dispersas pelas montanhas, a repartir os quatro vintens diarios e o vintem do municio!

Verissimo foi para Alvações e Nunes para S. Gens. O Norberto morreu por esse tempo d'uma congestão cerebral; alguem diz que o esganaram na cama dois malhados de Lobrigos contra os quaes elle tinha jurado em 28. D. Agueda recebeu o sobrinho carinhosamente. A herança do pai estava empenhada; foi á praça; sobejaram uns nove centos mil réis e a casa com as armas, pagadas as dividas. O Nunes dizia-lhe da Povoa que andava por lá miseravel, um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo de feijões e o tratava como um cão vadio. Que, depois da partida do Algarve, não tinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem tinha que vestir. O Verissimo chamou-o para Alvações com generosidade. Vestiu-o, e dava-lhe meios para elle poder estudar em Villa Real, com advogados miguelistas, que o estimavam muito.

A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do snr. D. Miguel das illuminações, que se parecia muito com o sobrinho.

No inverno de 1840, D. Agueda morreu de uma indigestão de castanhas, complicada com interite chronica e saudades da realeza. Deixou ao sobrinho a casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do snr, D. Miguel ás freiras de Santa Clara de Villa Real e mais dez moedas de ouro com a condição de lhe accenderem quatro velas de cêra no dia dos annos de sua magestade.