Verissimo viveu então largamente. Fez-se chefe de partido nas redondezas de Alvações do Corgo, onde era conhecido pelo capitão-Verissimo. Deitou cavallo e mochila; jogou rijo dous annos na Feira de Santo Antonio em Villa Real, e perdeu tudo. O Nunes, que já sollicitava causas na Povoa, repartia com elle dos seus proventos muito escassos, porque o juiz e os escrivães faziam-lhe guerra implacavel, e as partes fugiam d'elle.
O Verissimo sahiu de Alvações, onde não possuia palmo de terra; e, como tinha boa forma de lettra, offereceu-se para amanuense a um tabellião de Alijó. Ganhava tres tostões por dia e jantar. Como era boa figura, a mulher do tabellião, uma trigueira de má casta, entrou a comparal-o com o marido que tinha os dentes muito lurados e os olhos tortos. Mas o tabellião viu as cousas pelo direito, e pôz o amanuense na rua, e a mulher em lençoes de vinho, dizia-se. Verissimo conhecia o capitão-mór de Murça, o Campos, um hebreu realista, muito abastado. Offereceu-se-lhe para escudeiro e foi acceite com bom ordenado. O capitão-mór era viuvo; mas tinha uma governanta fresca, d'uma fome de peccado irritada pela indifferença judaica do amo em materia de religião. O Verissimo tinha a fatalidade femieira do seu Sosia, do snr. D. Miguel. O capitão-mór com o seu fino ôlho de raça, lobrigou as sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e impôl-o. Voltou ao Douro, e procurou o amparo d'um realista poderoso, o Antonio de Mello, de Gouvinhas, o pai do snr. Lopo Vaz, um grande ministro liberal cheio de embriões de coisas. O fidalgo de Gouvinhas nomeou-o feitor das suas quintas. Estava regalado; feitorisava pouco; o fidalgo admittia-o ás suas palestras intimas de politica; mas um sobrinho do Mello, um valente navalhista que chamavam em Coimbra o Malagueta, ganhou-lhe odio, por ciumes de uma tecedeira chibante, uma raparigaça de tremer, de quadris roliços, a Libania de Covas. Travaram-se de razões. O Malagueta correu sobre elle com um punhal. Verissimo acovardou-se na sua posição dependente e despediu-se.
A Libania tinha cordões e umas moedas ganhadas com o pudor diluido no suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos vinhateiros. Seguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. João Camêlo, abriu uma escóla de primeiras lettras em Miragaya. Ao cabo do primeiro mez, dava pontapés impacientes nos garotos, andava ralado, não podia com aquella bestialidade da instrucção primaria. A Libania queixou-se um dia de dôr de dentes. Foi uma inspiração. O Verissimo resolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac, á rua de Santo Antonio, um bom homem. Andava n'este tirocinio, quando encontrou no Tivoli, defronte da Bibliotheca, o Nunes. A Libania gostava muito de resvalar pela montanha russa, dava umas risadas argentinas, batia as palmas e queria montar os cavallos de páo que giravam no jogo da argolinha.
Quando se encontraram, o Torquato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha morrido deixando a casa ao outro irmão. Estava casado, e tinha dous filhos. Queria ir tentar a fortuna ao Brazil, trabalhar em mangas de camisa, se fosse necessario. O Verissimo respondeu-lhe que o unico favor que lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de graça. Confidenciou-lhe as suas miserias mais intimas; que aquella boa rapariga tinha gastado com elle quinze moedas e vendêra o seu oiro; mas, tão generosa, tão honrada que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que estava resolvido a ir estabelecer-se como dentista na provincia, logo que pudésse comprar o estojo que custava 12$000 réis, e não os tinha.
—Se os não tens—disse o Torquato—minha mulher tem um cordão que pesa tres moedas; para mim não lh'o pedia; mas para ti vou buscal-o ámanhã.—E accrescentou, de excellente humor;—Deus permitta que na terra onde te estabeleceres sejam tantas as dôres de dentes que não tenhas mãos nem queixos a medir.
Sahiram alegres do Tivoli. Sentiam-se bem aquellas duas organisações esquisitas. Havia ali duas almas que se amavam devéras, dous naufragos a quererem chegar um ao outro a mesma taboa de salvação. É n'estes esgotos sociaes que ainda, uma vez por outra, se encontram Pilades e Orestes.
O Verissimo morava atraz da Sé, na rua da Lada, uma casa d'um andar, muito empenada, com o peitoril de ferro de uma unica janella desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e negra como a bôca de um antro. Cearam todos. Havia cabeça de pescada cosida com cebolas, sardinhas fritas e pimentões. O Nunes foi buscar duas garrafas da companhia de tostão á rua Chã, e enfiou no braço uma rôsca de Vallongo que comprou na bodega da Caçoila, uma esmamaçada com cordões de ouro que frigia peixe á porta e dava arrôtos.
Cearam n'uma esturdia de rapazes, como em Braga, nove annos antes, na tasca do Catrambias, na rua do Alcaide. A Libania de Covas muito laraxenta—que levasse o diabo paixões, e mais quem com ellas medrava; que, em se acabando o dinheiro, fazia-se cruzes na bôca; mas que deixar o seu Verissimo, não o deixava nem á quinta facada.
—Nós deviamos ir todos para o Brazil—lembrou o Torquato, que tinha meditado n'um recolhimento extraordinario.
—E chelpa?—perguntou a Libania.