[7]Nota erudita. A historia, aliás exacta, que o fidalgo de Alvações contava, acha-se nos Nobiliarios, e está gravada no escudo d'esta familia. Lopo Rodrigues Camêlo foi moço da estribeira d'el-rei D. Sebastião, e muito querido de seu real amo. Viajára muito e era primoroso em pontos de cortezia. Uma vez acompanhára o rei a Coimbra; e, na passagem de S. Marcos para Tentugal, encontraram a ponte do Mondego cahida. O rei quiz passar a váo, e o estribeiro observou-lhe que o passo alli era perigoso. D. Sebastião redarguiu: "Então passai vós primeiro."—Se vossa alteza me engana,—volveu o cortezão—ditoso engano é esse.—E, mettendo-se á vala espapada de limos e lodo, submergiu-se a ponto de ficar só com a cabeça e um braço de fóra. El-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mão, e tirando-o com valente pulso para a margem. Lopo Rodrigues, afim de que os seus descendentes lêssem este caso no marmore do seu brazão de armas, pediu a el-rei que lhe mandasse reformar o escudo em lembrança de tal successo.
E assim lhe foi debuxado o escudo: Em campo verde uma ribeira de prata ondeada. D'esta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega outro vestido de brocado com lettras de negro que dizem R E Y. Este braço real sahe da banda direita do escudo, na esquerda está uma estrella de oiro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flôr de liz de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrella nos dedos. A carta foi registada no "Livro dos Privilegios", no anno de 1574.
Marcial fez rir os romanos á custa de um genealogico esquadrinhador de tal casta, que, não tendo já humanas gerações que espanejar do lixo dos seculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de um cavallo chamado Herpino. Passarei tambem ás caudelarias quando o brazão subir da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados ás bestas elegantes.
[XI]
O Torquato, antes de entrar em casa, foi á residencia. Ia mysterioso, circumvagava uns olhares cautelosos:—se ninguem o ouviria?—perguntava ao abbade Marcos.
E o abbade, entrepondo as cangalhas nas paginas do breviario,—pôde fallar, que estou sósinho. Que é?
—D. Miguel I está em Portugal—disse, curvando-se-lhe ao ouvido, com uma voz guttural.
—Você que me diz?! Como sabe isso? Pataratas!
—Chego agora do Porto; estive com o escrivão fidalgo, o Ferreira Rangel e com o abbade Gonçalo Christovão. El-rei está n'esta provincia. Desconfia-se que é em Braga, e o José Alvo Balsemão disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho, porque o levantamento ha-de começar por aqui.