—Que me diz você, amigo Torquato?—sacudia os braços, fazia estalar os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exultação extatica—que ia escrever ao abbade de Priscos, que indagasse, que apparecesse...—É preciso trabalhar, preparar os animos...
—Chiton!—acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o nariz. Nada de espalhafato! Não ferva em pouca agua, abbade. Se dér á lingua, esbarronda-se o negocio. O rei só ha-de apparecer aos seus amigos quando os generaes entrarem pela Gallisa. Não falla a ninguem; não se dá a conhecer. Diz que só fallára em Lisboa com o conde de Pombeiro e com o Bobadella, e no Porto com o José Antonio, o morgado do Bom Jardim, e mais com o padre Luiz do Torrão... O abbade conhece.
—Pois não conheço? como as minhas mãos; é o vice-rei nas provincias do norte ... o nosso bom padre Luiz de Souza que pelos modos está nomeado patriarcha de Lisboa... Que pechincha, hein?
—É esse mesmo... Bem! até logo; vou vêr a mulher e os filhos a casa, que ainda lá não fui. Um abraço, amigo abbade! Parabens! A choldra vai cahir! Vida nova! D'aqui a um mez está todo esse Minho em armas, e el-rei á frente dos seus vassallos. Outro abraço, e viva el-rei!
Lagrimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas palpebras inflammadas do abbade.
—Jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de 1815, á saude d'el-rei!
—Parece que me estoira a pelle! Não estou em mim!—Que ia vêr a mulher e que voltava já.
Na noite de sabbado para domingo de carnaval, o Verissimo pernoitou na Povoa de Lanhoso, na estalagem do Rêlhas.
Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela provincia. Perguntou se por ali não se festejava o entrudo. O bodegueiro informou que na Povoa havia guerra de laranjadas e ás vezes pancadaria de senhor Deus misericordia; mas que na freguezia de Calvos havia comedias nos tres dias de entrudo, por signal que o seu filho, um barbado que ali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de namorado no Medico fingido, um entremez coisa rica, que era de um homem malhar de costas n'aquelle chão a rir—que se elle quizesse vêr as comedias, podia ir com o seu rapaz, que lhe arranjava lá uma cadeira de casa do abbade.
O scenario para a representação do Medico fingido arranjou-se na eira do Gonçalves, muito espaçosa e ageitada, porque as figuras entravam e sabiam, conforme a rubrica, do palheiro que tinha tres portas. O palco, barrado de ferro, ainda humido, estava ao abrigo de cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retezadas nas pontas por postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns varaes lançados transversalmente. Havia dous mastros de castanheiro descascados, afestoados de buxos, alecrim e camelias, coroados por bandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma listra em zig-zag pintada a zargão que se ia espiralando pelo pau acima, com cercadura de cruzinhas:—era obra de Chêta, um trôlha inspirado que já tinha pintado um painel das Alminhas, onde havia almas do sexo fraco com grandes têtas lambidas por lavaredas, e um rei coroado com a bôca aberta no acto de berrar queimado, e tamanha bôca que só cedia á de um bispo mitrado, muito impertigado, com o seu baculo. O trôlha ensaiára o entremez, e não entrava, porque lhe tinha morrido o pai, havia quinze dias, contava elle a um senhor de fóra, desconhecido, que tinha vindo com o galan, o filho do estalajadeiro da Povoa.