Um official de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre Zeferino, contou-lhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando que era dia nado, se levantára para ir para a obra; mas que ao passar por diante da casa do Simeão ouvira duas horas no relogio, e vira luz pelas frestas de uma janella. Que se puzera á coca debaixo de um carvalho, a desconfiar que a luz áquella hora não era coisa boa, e estivera, vai não vai, ó pernas p'ra que te quero, lembrando-se se seria bruxedo ou alma penada, por que se dizia que a Genoveva do Simeão, a que se deitara ao rio, não podia entrar no purgatorio, e morrera com o diabo no corpo, salvo seja. Estava n'isto quando a luz se sumiu, e se coou pelas frestas d'outra janella, e logo depois n'outra mais baixa, onde um homem podia chegar, com o cabo d'um machado. N'isto apagou-se a luz e abriu-se a janella de portadas sem vidros. Dava-lhe a chapada do luar;—era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça e depois meio corpo de homem que se pôz ás cavalleiras do peitoril da janella, quedou-se a olhar e a escutar a um lado e outro; depois desmontou-se muito devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se cahir, ficando em pé. A janella fechou-se, e o José Dias, que o operario conheceu como se o visse ao meio dia, metteu-se ao caminho de Villalva, por signal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao luar como um espelho.
O oratoriano Manoel Bernardes, como é notorio, escreveu um livro edificante, muito piedoso, chamado Armas da Castidade. O mystico filho de S. Philippe Nery, com duas palavras sãs, d'um realismo seraphico, cabalmente explicou a situação d'outro José Dias a respeito d'outra Martha. Conhecia-lhe o leito, dizia elle. É o mais que se póde dizer sem escandalisar ninguem. Conhecia-lhe o leito.
Mas o Zeferino é que sentiu em cheio no peito amante a facada do escandalo. O official viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava esquadriando, e, com o rosto entre as mãos, desfazer-se em pranto. Elle tinha amado aquella rapariga desde que a vira aos treze annos. Trabalhára e roubára como gallego para a poder comprar ao pai por um conto e quinhentos e pico. Metteu-se na politica; fez-se sargento-mór a vêr se se levantava a uma altura em que a Martha o achasse digno d'ella e superior ao estudante. Desabadas as esperanças com a prisão do patife de Calvos, scismava ainda em voltar de novo ao campo quando viesse o D. Miguel authentico, porque o tenente-coronel de Quadros lhe dizia que el-rei chegava a Portugal na primavera do anno seguinte—affirmava-lh'o o padre Rocha para o consolar juntamente com as bebedeiras quotidianas. Tudo acabado, perdido, como se lhe morresse a Eva do seu paraizo! E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas trahidos, como Camões, como Tasso, como Alfred de Musset. As lagrimas na cara tostada d'aquelle operario tinham o travo das que a poesia crystallisou no pantheon dos martyres do amor.
Depois, levantou-se, limpou as faces á manga da camisa, pegou da esquadria e continuou a trabalhar, assobiando a musica triste d'uma cantiga d'esse tempo:
Ó mar, se queres,
Tem dó de mim.
Estes assobios eram o silvo da serpente da vingança; mas o seu rancor não punha a pontaria em Martha. Se deixava de cinzelar a pedra, e fitava os olhos extaticos n'um immenso vacuo, via passar lucilante a imagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze annos. Um grande romantico—uma explosão de ideaes que florejavam d'aquelle pedreiro como um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia d'estas transigencias com os anjos despenhados. Dir-se-ia que elle tinha lido as Confissões de um filho do seculo, aquella torrente de lagrimas ignobeis que lava os pés de uma dissoluta illustrada.
Elle, desde essa hora funesta, pensou em matar o José Dias; mas, nas ricas protuberancias osseas do seu grande craneo, a bossa do homicidio era muito rudimentar. Tinha tido varias occasiões de poder-se gabar d'essa perfeição. Haviam-lhe batido dois estudantes a um pinhal, por causa das denuncias ao padre mestre Roque; e, quando o cão do Dias lhe rasgou a calça n'um sitio melindroso, o Zeferino desconfiou que, se fosse capaz de matar um homem, deveria ter atirado com o machado á cabeça do caçador. Elle queria espesinhar o cadaver de José Dias, espostejal-o, trincal-o, mascal-o, esmoêl-o, devoral-o, mas á maneira dos devoristas incolumes que compram um porco já morto na Ribeira Velha, e o esquartejam com um grande regosijo anthropophago, com as mãos ensopadas nas banhas da victima.
O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a descoberta que fizera n'aquella noite em que se enganára com o luar. A Martha estava desacreditada na freguezia; as mulheres que sachavam os milharaes faziam commentarios perpetuos ao texto do pedreiro, recordavam as façanhas da Genoveva, contadas pelas velhas, e as mais antigas diziam que a Brigida Gallinheira, avó da Martha, já tinha dado o exemplo á filha.—Uma geração de maratonas do alto, dizia a tia Rosa de Carude, cuspindo no chão, e pondo a soca em cima. Riam-se do Zeferino que andava como a cobra que perdeu a peçonha, muito escamado; que lhe tinham sahido dois casamentos com boas lavradeiras, e elle diz que havia de ir morrer solteiro ás Pedras Negras, depois de matar um homem; e houve quem affirmasse que o vira com um bacamarte debaixo dos carvalhos, por essa noite fóra, defronte da casa do Simeão. Uma calumnia.
Avisaram a mãe do José Dias da espera do pedreiro, e ella fez dormir o filho era uma trapeira que não tinha janella por onde saltasse, e fechava-o de noite por fóra, rogando pragas á serêsma de Prazins:—Que um raio a partisse e o diabo a levasse para as profundas do abysmo! Depois ia rezar a corôa com os creados, e rogava a Deus pelos que andavam sobre as aguas do mar e pelas almas de todos os seus parentes e visinhos, com uma intonação chorada que fazia devoção.
O José Dias vivia amargurado. Tinha sido creado n'um grande respeito aos paes, e sentia-se inhabil para lhes reagir. A doença de peito que principiava a desvigorisar-lhe o corpo, implicava-lhe com a atonia da alma. Sentia o egoismo indolente dos enfermos minados pela consumpção lenta. Invejava a robustez do irmão, um trabalhador forte que dormia dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o gado com uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das chulas. Passava muitas horas com o seu confidente, o padre Osorio. Pedia-lhe conselhos—que arranjasse modo de elle poder casar com a Martha.—Que eu, dizia com desalento, não vou longe; mas queria remediar o mal que fiz.