A Martha escrevia-lhe para Caldellas, porque a tia Maria de Villalva, uma vez que lá viu um garoto com carta para o filho, deu sobre elle com um engaço, que por pouco o não apanha pela cabeça com os dentes do instrumento. As cartas eram desconfianças, receio do abandono, lagrimas. O pai não a mortificava. Pelo contrario, dizia-lhe a miudo:—Se o Zé de Villalva não casar comtigo, talvez seja a tua fortuna, por que póde ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais mez menos mez elle rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O brazileiro da Rita Chasca que chegou agora diz que elle tem quatrocentos contos fortes, p'ra riba, que não p'ra baixo.—A Martha escondia-se a chorar; e, ás vezes, lembrava-se do fim da mãe—o suicidio; e punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido cavo de uma levada que parecia trazer-lhe os gemidos agonisantes de muitos afogados.
O Dias fallava-lhe na sua doença, no desfallecimento de forças que já o não deixavam caçar, da tristeza que o consumia, do desamor com que a familia o via padecer, do odio que começava a ter á mãe, e das saudades dilacerantes que sentia pela sua querida Martha.—Que o seu amigo padre Osorio trabalhava para obter o consentimento do pai; mas que, se o não obtivesse, estava resolvido a fugir com ella, mesmo sem recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe podia emprestar.
De tempo a tempo ia vêl-a de dia; mas a mãe trazia-o muito espreitado, e ralava-o:—que a tal croia havia de dar cabo d'elle. O cirurgião tinha-lhe dito delicadamente que o José abusava do 6.°. Ella, como sabia os mandamentos de cór e salteados, entendeu logo, e dizia a toda a gente que o seu Zé andava assim um pilharengo por causa do 6.°. Era o resultado de saber a doutrina christã esta decencia no explicar-se por numeros. As visinhas entendiam-na e diziam-lhe que o José andava forgado, que lhe mettesse uma enxada nas unhas e o puzesse a roçar matto oito dias, que elle perdia o cio.
Decorreram alguns mezes. Com a primavera a saude de José Dias pareceu restaurar-se. Elle attribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai, que era regedor, a pedido do governador civil que o mandou chamar a Braga, por intervenção do padre Osorio, dava o consentimento; mas a mãe recalcitrava. Esperava-se, porém, a vinda dos missionarios a Requião, para a reduzirem ao dever de catholica. O vigario de Caldellas já tinha prevenido um egresso do Varatojo, fr. João de Borba da Montanha, das terras de Celorico de Basto, d'uma força prodigiosa em emprezas mais difficeis.
Martha recobrava alegres esperanças, e o Zeferino das Lamellas digeria a sua dôr, assobiando a musica da melancolica bailada:
Ó mar, se queres.
Tem dó de mim.
Para seu desafôgo, ia a miudo a Quadros saber quando chegaria o snr. D. Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formára-se a juncção dos dois partidos hostis aos Cabraes, aproximados pelas eleições sanguinarias de 1845. O tenente-coronel reunia espingardas em Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho da Povoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimarães. O padre Rocha communicava-lhe as noticias enviadas de Londres pelo Saraiva, e conseguiu que elle fosse ao Porto receber o gráo de commendador da ordem de S. Miguel da Ala a casa do João d'Albuquerque, da Insua, que representava nas provincias do norte o Grão-Mestrado. O Zeferino sentia momentos de jubilo de tigre que se agacha a medir o salto á presa. Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a mastigar os ligados do José Dias.
[XIV]
Em março d'aquelle anno, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os motins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na camara dos communs, lord Bentinck explicou tragicamente, em phrases pomposas, a origem d'essa revolução, que um desdem indigena chamou «rebellião da canalha». Elle disse que os Cabraes mandaram construir cemiterios; mas não os muraram; de modo que entravam n'elles cães, gatos e porcos bravos em tamanha quantidade que chegaram a desenterrar os cadaveres.[8] As nações e os naturalistas deviam formar uma idéa assaz agigantada do tamanho dos gatos portuguezes que desenterravam cadaveres, e das boas avenças dos nossos cães com os referidos gatos na obra da exhumação dos mortos, e não menos se espantariam da familiaridade dos javalis que vinham do Gerez collaborar com os cães e gatos n'aquella mineração das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreição nacional de 1846 está definida nos fastos da Europa revolucionaria. Foi uma reacção, uma batalha social á canzoada e gataria confederadas com o focinho profanador de porco montez. E d'ahi procedeu escreverem os jornalistas da Allemanha, um paiz sério, que a revolução do Minho era o «typo da legalidade». Os cadaveres servidos nos banquetes illegaes e nocturnos dos javalis, com a convivencia de gatarrões a rosnarem com o lombo erriçado, e molossos de colmilhos ensanguentados foi caso que impressionou grandemente as raças tudescas, por ser um acto prohibido pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas de Braga, quer a alcateia das feras colligadas, o certo é que a insurreição do Alto Minho talou esta provincia e a transmontana, devastando as papeletas impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos gatos e seus cumplices fez soffrer ao capital do paiz uma diminuição de 77 milhões e meio de cruzados, segundo o calculo do ministro da fazenda Franzini, muito retrógrado, mas um genio no algarismo.