O Zeferino das Lamellas, ás primeiras commoções do vulcão popular, nos arredores de Guimarães, preparou-se; e assim que ouviu repicar a rebate em Ronfe, cheio de ciumes como o sineiro de Notre-Dame, agarrou-se á corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de tres freguezias, e pegou a dar morras aos Cabraes com applauso universal. Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este expediente estatistico com canastro:—que os Cabraes e os seus empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal á Inglaterra; que esses roes estavam nos cartorios das administrações e em casa dos regedores; que era preciso queimar-as papelêtas e matar os cabralistas.
Em seguida, invadiram a administração de Santo Thyrso, quebraram as vidraças dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos papeis acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalicão. Zeferino nomeára-se chefre da gentalha embriagada nas adegas arrombadas dos cabralistas, e alvitrou que se prendessem os regedores que topassem. Dizia que o Joaquim de Villalva, nas eleições do anno anterior, muito socadas, cascára no povo e mais os cabos, na assembleia de Landim, cacetada brava. A bebedeira dos ouvintes dera á perfida aleivosia do pedreiro vingativo o valor de facto historico. O plano de Zeferino era abrir opportunidade a que José Dias fosse assassinado ou, pelo menos, preso e degredado como cabralista.
Villalva ficava-lhes a geito, no caminho de Famalicão. O amante de Martha ouvira grande alarido e vira ao longe a multidão que galgava um outeiro turbulentamente. Via-se desfraldado no ar, em oscillações largas, o panno escarlate de uma bandeira: era um pedaço do Velho estandarte que servia nas procissões de Santa Maria d'Abbade. José pediu ao pai que fugisse. O regedor disse que não—que nunca tinha feito mal a ninguem, nem sequer prendêra um refractario: que o mais que podiam fazer era tirar-lhe o governo.
José Dias tinha mêdo ás covardes ameaças do Zeferino; diziam-lhe que o pedreiro jurára matal-o, e já constava que era elle o chefe da guerrilha, em que se alistaram todos os ladrões e assassinos conhecidos na comarca. A mãe empurrava-o pela porta fóra—que fugisse para Caldellas; que não fosse o diabo armar-lhe alguma trempe por causa da Martha, da tal bebedinha que não dera cavaco ao pedreiro. Elle deitou o sellote á egua e fugiu a galope; mas o regedor, com a sua consciencia illibada, esperou os revoltosos com o Zeferino á frente, brandindo a espada do pai, que não se desembainhára desde o ataque a Santo Thyrso.
—Está você preso por cabralista!—intimou o pedreiro, deitando-lhe a mão á lapella da véstia; e voltado para a turba:—Rapazes, cercaide a casa; tudo que estiver, preso!
—Os meus filhos sahiram; mas entrem, busquem á vontade disse o regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente:—Ah seu Zeferino, seu Zeferino, você não veio aqui p'ra me prender a mim... É outra historia que você lá sabe. Isto de mulheres são os nossos peccados, mestre Zeferino...
—Não me cante!—bradou o das Lamellas com furiosos arremêssos.—Está preso, e mexa-se já para a cadeia.
—Você não pôde prender-me, mestre Zeferino—contrariou a auctoridade dentro da lei—Vá buscar primeiro uma ordem do meu administrador ou do governador civil.
—Já não ha governador civil!—explicou o caudilho—Agora são outros governos, seu asno! Quem reina é o snr. D. Miguel l.° E você não me esteja ahi a fanfar, que eu já o não enxergo. Ande lá p'ra cadeia com dez milhões de diabos!
O regedor entrou em Villa Nova de Famalicão na onda de alguns milhares de homens e rapazes que davam vivas a D. Miguel, ás leis novas, á santa religião e morras aos cabralistas. Quando queimavam os papeis, um brazileiro setembrista, o Sá Miranda, disse ao commandante que não convinha por emquanto aclamar D. Miguel; que dessem morras ao governo e vivas á religião. N'esta barafunda, o regedor preso entre meia duzia de jornaleiros que discutiam as leis velhas e as novas na taverna do Folipo, comprehendera um acêno do taverneiro e fugira pelos quintaes. Metteu-se ao caminho de Braga, onde estava o general conde das Antas. O José Dias, receando que o perseguissem em Caldellas, refugiara-se também em Braga e alistou-se no batalhão dos serezinos commandado pelo conego Mont'Alverne.