N'este meio tempo, chegou da America o Feliciano Rodrigues Prazins, tio de Martha. Demorou-se poucos dias. Ganhára medo que o roubassem as guerrilhas. Foi para o Porto pôr em segurança as suas lettras e voltou quando a queda dos Cabraes garantia o socego dos capitalistas. Na volta a Prazins, olhou mais attentamente para a sobrinha, deu-lhe alguns cordões, e disse ao irmão que não se lhe dava de casar com ella. O Simeão affirmou logo com um descaramento perdoavel:—que não se fosse sem resposta o mano que a moça dava o cavaco por elle.
Feliciano tinha quarenta e sete annos. Não se parecia com a maioria dos nossos patricios que regressam do Brazil com uma opulencia de fórmas almofadadas de carnes sucadas. Era magro esqueleticamente, um organismo de poeta sugado pelos vampiros do spleen. Dizia, porém, que tinha febras de aço e nunca tomára remedios de botica. Muito myope, usava de monoculo redondo n'um aro de bufalo barato. Como era economico até á miseria, dizia-se em Pernambuco que o Feliciano usava um vidro só para não comprar dous; e que, se pudésse, venderia um olho como coisa inutil. Com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta annos arredondára trezentos contos. Chegára aos quarenta e sete, ao outono da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcára nos latibulos da Venus vagabunda. A sua virgindade era admirada e notoria; depunham a favor d'ella os seus caixeiros, os feitores e—o que mais é—as suas escravas. Os seus patricios devassos chamavam-lhe o Feliciano Pudicicio. Elle não se envergonhava de confessar a sua castidade ao parocho de Caldellas. Tinha vivido como um dessexuado;—que trabalhava muito nos seus armazens, que dormia poucas horas, e não dava folga ao corpo nem péga aos vicios. Originalissimo. Que lhe sahiram casamentos ricos; mas que elle para ser rico não tinha precisão de mulher; que vira algumas meninas pobres a namoral-o; mas que desconfiára que lhe namorassem o seu dinheiro. Não tinha queda para o sexo que elle dizia seixo. N'uma palavra, estava virgem. Elle podia dizer como Hamlet: Não me deleitam os homem não tão pouco as mulheres.
A sobrinha reformára aquella natureza aleijada. Talvez o desdem com que Martha o tratava na crise da sua paixão, fosse grande parte no amor do brazileiro. Além d'isto, a môça, muito parecida com elle na delgadeza das fórmas, tinha encantos que dispensavam a esquivança para se fazer amar de um homem de quarenta e sete annos—intacto de mais a mais. O presente que lhe fez de uma meada de cordões de ouro significava uma desordem, pelo menos interina, na sua condição sovina. Martha acceitou a dadiva sem enthusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai a prevenira da possibilidade de ser mulher de seu tio, se adregasse gostar d'ella. Quando o tio lhe deu os cordões, teve-lhe uma nausea, um quasi odio, suspeitando-lhe os projectos; e quando elle fugiu para o Porto, com medo ás guerrilhas, sentiu ella uma satisfação incomparavel. Entretanto, apezar das más informações do brazileiro da Rita Chasca, o Feliciano sentia filtrar-se-lhe nas cellulas impollutas do coração o veneno dôce de uma paixão cheia de condescendencias, pouco superciliosa em pontos de honra, como quem pensa que no thalamo conjugal não se faz mister a virgindade em duplicado. Mas não era assim que elle pensava. Ninguem lhe desdourára a honra da sobrinha, nem o derriço com o José Dias fazia implicancia á sua honestidade. Elle não tinha os rudimentos de malicia necessaria para desconfiar que uma menina de dezeseis annos, creada nos seios da Natureza immaculada de uma aldeia do Minho, pudesse abrir de noite uma janella, debruçar-se no peitoril e ajudar a subir um homem. O official do pedreiro é que sabia casos, anomalias, desde aquella noite em que o luar o enganou.
Martha ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio. Irritou-se. Tinha sido creada com muito mimo, sem mãe, voluntariosa, e com uns ares senhoris que desauctorisavam o respeito que o pai, rustico lavrador, não sabia incutir. Em vez de chorar como as filhas desgraçadas e humildes, respondeu desabridamente que não casava com o tio; que o desenganasse, se quizesse; e, se não quizesse, ella o desenganaria. A terrivel nota golpeára-lhe o coração cheio de saudades de José Dias que lhe escrevêra de Braga, por intervenção do padre Osorio, dando-lhe coragem e esperança no casamento logo que cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando elle instava com ella a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem mais rico de Portugal, abaixo do rei. Martha replicava com tregeitos de tedio desdenhoso; e, exaltada pela boçal insistencia do pai, protestava, se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua mãe.
O Simeão perdeu a vontade de comer; andava atordoado n'uma tristeza estupida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido na serra. A pequena já não queria ir á mesa, mettia-se na cama e fingia-se doente para não encontrar o tio Feliciano.
José Dias e o pai permaneciam em Braga, por que em differentes pontos da provincia continuavam as agitações miguelistas; o novo ministerio não tinha força, e o Zeferino das Lamellas nunca depozera as armas. Os seresinos faziam excursões e batiam os realistas ou prendiam os agitadores. José Dias, em uma d'essas sortidas a Villa-Verde, a pé e com pouca saude, ganhára uma bronchite que o teve de cama largo tempo. Quando se levantou, n'uma apparente convalescença, a tisica tuberculosa recrudescia pessimamente caracterisada. O padre Osorio fôra visital-o, ouvira o medico e sabia que o seu amigo estava perdido. Fallou ao pai, em particular, no estado do filho. Lembrou-lhe a sua promessa de consentir no casamento com a pobre Martha, que se perdêra confiada nos compromissos do José. O lavrador mostrou não perceber a conveniencia de Martha em casar, se o seu filho tinha de morrer cêdo.—Que a viuva, dizia, nada ganhava com isso, porque os herdeiros de José eram seus pais. Não comprehendeu a questão por outra face. Mas, apertado pela palavra que déra, repetiu que elle pela sua parte concedia a licença, se a mãe a désse; e justificava-se d'este respeito á mulher, allegando que a casa de Villalva era toda da sua companheira, e o que elle levára para o casal não valia dois caracoes.—Emfim, concluia, se o rapaz arrijar, casa querendo a mãe; mas, emquanto elle assim estiver, faça favor de lhe não fallar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal... E um homem que está doente devéras não deve pensar em mulheres, é na salvação da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osorio.
—O vigario aprende o padre-nosso, dizia o de Caldellas.
Entretanto, o doente, muito animado, não sentia aquelles desalentos e presagios de morte que mezes antes o affligiam. Habituára-se ao soffrimento; já não tinha memoria das perfeitas delicias da saude. Quando espectorava sem violencia, e a dyspnea cedia aos xaropes e ao pez de Borgonha julgava-se em uma quasi completa restauração. Escrevia ao Osorio e a Martha com muita alegria e devotos agradecimentos a Deus e a Maria Santissima com quem se apegára fervorosamente desde que padecia, e tambem com o oleo de figado de bacalháo.
A repugnancia de Martha, face a face do tio Feliciano, seria um affrontoso desengano para o millionario, se não interviesse o implacavel e engenhoso ciume do Zeferino. Este chefe de guerrilha em armisticio soube que o brazileiro queria casar com a sobrinha e que o José Dias estava em Braga muito acabado, a dar á casca. O pedreiro chamou os bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brazileiro de Prazins pedira para Famalicão um regimento da divisão do Antas para deitar cêrco ás casas dos realistas, e sujeitára-se a sustentar o regimento á sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prendel-o como cabralista, e fazel-o pôr á má cara o dinheiro que havia de dar á tropa. Um dos da malta, visinho do brazileiro, o Metro, tinha-o convidado para padrinho de um filho. Procurou-o ás escondidas e avisou-o que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a pressa. Queria que a sobrinha tambem fosse. Escrevia-lhe que, se quizesse ir, compraria casa no Porto. Martha respondia que estava muito doente, que não podia sahir da cama. O pai chegava a descompôl-a:—Que não tinha molestia nenhuma, que era por causa do Zé Dias; mas que perdesse d'ahi a idéa por que estivera com o doutor Pedrosa, de Santo Thyrso, que o vira em Braga, e lhe dissera que o Dias estava ethego e mais mez menos mez esticava a canella.
Martha respondia com serenidade de alma forte, e escorada n'uma resolução suicida:—Se não casar com elle n'este mundo, casarei no outro.