Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da noite á beira do cadaver do fidalgo de Quadros. Á claridade fusca da manhã invernosa viram-lhe o semblante que mettia pavor. Quizeram cerrar-lhe as palpebras que resistiam á distensão, coriaceas, n'um retezamento orgastico. A maxilla inferior parecia deslocada e torta, repuxando a commissura direita dos labios n'um esgar de escarneo ou de angustia dilacerante. A côr do rosto era agora d'uma amarellidão de barro, molhado pelo orvalho que se filtrára atravez do lenço com que lh'o cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexiveis e uma das mãos afincada como garra nas correias da pasta.
O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com dinheiro em ouro; mas ninguem ousou desabotoar a farda do morto defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinellas, intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que foi dia claro, o Zeferino desceu á egreja proxima, a Margaride, avisar o parocho que tinha morrido na estrada um fidalgo do exercito do snr. D. Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro; que se dirigisse ao regedor. A auctoridade, sem as delongas dos processos legaes, depositou o cinturão com as peças na mão do administrador, e mandou abrir uma cova no adro da egreja, onde o baldearam com um responso economico. Passavam jornaleiros para as roças. Punham as enxadas no chão e encostavam ás mãos callosas as caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto de réis em ouro.
—Toma!—disse um dos jornaleiros—um conto de réis! E inclinando-se á orelha d'outro jornaleiro:—Ó Tonio, se temos ido mais cedo para o monte ... e topamos o morto...
—Que pechincha!...
Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idyllio em prosa.
O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em Traz-os-Montes os soldados do Vinhaes; depois passou com alguns chefes realistas para a Junta do Porto; e, acabada a lucta, foi para casa e entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas caricias:—Eu sempre te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bebado de Quadros; que não sahisses a campo sem lá vêr o morgado de Barrimáo. Agora, pedaço d'asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de Villalva, e quizeste agarrar o brazileiro de Prazins que tem agora de mais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias anda por ahi a berrar que a Martha e mais tu lhe mataste o filho. Lume no olho, homem, lume no olho!
—Se alguem embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta!—protestava o pedreiro cortando com o braço e punho fechado punhadas aereas.—Se me matarem ... até lh'o agradeço!—E com desalento: Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre a rosa do sol! Veja você: ha tres annos que não tenho uma migalha de estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lh'o eu! Você verá, sôr pai, que ou me matam ou eu acabo n'uma forca pr'ámor d'aquella rapariga que foi o diabo que m'appareceu, e não me passa d'aqui!—e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos como quem apanha uma pulga.
Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. Para as cabeças dos districtos ramificaram-se destacamentos afim de coadjuvarem a auctoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado a Famalicão e incumbido de dirigir a diligencia militar que devia dar um assalto a Lamellas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor comprehendeu o perigo da empreza; pediu que o demittissem; mas a auctoridade impoz-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a demissão.
Quando o Zeferino, succumbido á carga dos revezes, indifferente á vida e á morte, se chamava infeliz e desgraçado, o destino implacavel preparava-lhe novo desastre. Elle, ao romper da manhã, depois de uma insomnia febril, sonhava que era sargento-mór das Lamellas e assistia á formatura do regimento de milicias de Barcellos debaixo do solar de D. Maria Pinheiro. Na janella gothica do velho edificio da época de D. Affonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exercito vencedor, em que havia muitas musicas marciaes, de fulgurantes trompas, tocando o Rei-chegou: e o abbade de Calvos, dentro de um carroção e vestido de pontifical, borrifava o povo com hyssopadas de agua-benta, cantando o Bemdito. As tropas estendiam-se até Barcellinhos, e pelo Cavado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes com as bandas musicaes de S. Thiago d'Antas e de Ruivães tocando a Cana-verde e Agua leva o regadinho. Em um d'esses bergantins com pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque, mestre de latim, com os seus oculos, a fazer meia; e ao lado d'ella, vestida de setim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabellos soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em Braga, a Martha de Prazins. Elle estava na ponte, absorto na visão da noiva que chegava pelo Cavado para se casar quando um visinho lhe bateu com o cabo da sachola na janella tres pancadas. Saltou da cama atordoado.
—Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas Lamellas com o regedor.