Zeferino ganhou de prompto os desvios d'um pinhal, e por detraz d'um socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em frente da sua casa e apontar para as janellas. Ouviu bater estrondosas cronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e entrarem pela porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a escolta a retirar-se com dous homens carregados de armas.

O velho alferes, entrevado, estava muito afflicto quando o filho entrou. O sargento quizera levar-lhe a sua espada; e compadecera-se d'elle quando o vira a chorar e a dizer-lhe que era um alferes do antigo exercito, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que elle não podia defendel-a porque estava tolhido.

O Zeferino perguntou pacificamente:

—E o Simeão que dizia?

—Não dizia nada. Eu é que lhe disse... Arrieiros somos, na estrada andamos, visinho Simeão.

O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos afincadas na cabeça: olhava para o canto em que tivera duas duzias de espingardas compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita:

—Ellas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou ... Que leve o diabo tudo...—E, passados alguns segundos de recolhida angustia:—Veja você, sôr pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz que m'a não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da minha paixão, fiquei areado do juizo, deixei a arte, andei por esse mundo a gastar á minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me levar o diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, mettia-me uma baioneta no corpo...

—Homem—atalhou o pai com juizo—não fosses tu lá a Prazins embirrar com o brazileiro...

—Eu tenho a minha paixão—objectou o filho com transporte—tinha cá dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e elle ... que mal lhe fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe você que mais?... Assim com'ássim, estou perdido...

Sahiu arrebatadamente e foi para o Monte Cordova conversar com o Patarro, um velho scelerado que se batêra em Braga com a cavallaria do Casal e pudéra salvar-se com o sacrificio de tres dedos e do nariz acutilados.