Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta solarenga, torreada, com o brazão dos Brandões, que o brazileiro comprára a um fidalgo de Afife. O negocio deitára a tarde. Simeão sahira ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dous lavradores d'outra freguezia que montavam eguas andadeiras de muitos brios. O Simeão cavalgava a sua velha russa, d'uma pachorra mansa, invulneravel á espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e andando para traz. Ella não podia manifestar de um modo mais sensivel a sua repugnancia pelas pressas. O dono gabava-se de só ter cahido juntamente com ella poucas vezes. Sahiram da feira conversando a respeito de Martha. Constava aos outros que ella se quizera matar á conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ella quizera atirar-se ao rio; mas que estava quasi boa em Caldellas; que o vigario e mais a irmã lhe tinham dado um geito ao miôlo; e logo que ella estivesse fina, casava com o tio.

—E elle quél-a? — perguntou o Bento de Penso.

—Pois então!... Tomára-a elle já.

—Emfim—tornou o Bento—você ha-de perdoar que eu lhe diga o que tenho cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava lá de noute. Eu não vi, mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com mulher de maus cretos. O seu brazileiro pelos modos é de bô comer...

—Tem bô estomago, é o que é—confirmou o Belchior da Rechousa.

O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviaes nas aldeias ainda immaculadas do resguardo das conveniencias; mas defendia a honra da filha, attribuindo ao Zeferino as calumnias que espalhava para se vingar.

—Emfim—disse o Belchior—você tinha-lh'a dado por quinze centos. É o que diz o povo, e palavra d'home não torna a traz.

—Isso cá da minha parte foi chalaça...—defendia-se o Simeão, quando tres homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no caminho, saltaram de uma ribanceira, á frente das tres eguas que caminhavam a passo. Um dos tres jogou uma paulada á cabeça do Simeão e derrubou-o.

Os dois lavradores das eguas travadas deram de calcanhares e pareciam dois duendes de comedia magica vistos á luz crepuscular. O caseiro abandonou as sôgas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada fuga até Famalicão, e á entrada da villa gritou—aqui d'el-rei ladrões! Contou o successo ao povo alvorotado, acudiu a auctoridade, encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta dos ladrões. Acharam-o prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça. A egua rilhava entre os dentes e o freio umas vergonteas tenras de tojo, e de vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhaes enfolipados. O Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido, e disse que tinha o miôlo á vista; não podia durar muito, que lhe dessem a santa uncção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais proximo e levaram-o para Prazins promettendo duas de doze a dous jornaleiros. O caseiro montou a egua para ir a Santo Thyrso chamar o Baptista, o cirurgião da casa; mas a burra estranhando as esporas dos tamancos, levantou-se com o cavalleiro, deixou-se cahir sobre os jarretes trazeiros, voltou-se de lado como quem se ageita para dormir: foi necessario levantal-a. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro puxava debaixo do ventre da egua a perna entalada, muito cabelluda; e alli perto estava a padiola com um velho gemente, agonisante, a pedir a confissão.

Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso á Martha que o pai estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D. Thereza e o prior acompanharam-a. Quando chegaram, sahia o parocho de o confessar e tocava o sino ao viatico. Havia uma agitação de angustiosa curiosidade no povo que confluia á egreja chamado pelo signal. Dizia-se que eram ladrões que sahiram ao lavrador em S. Thiago d'Antas; havia opiniões mais individualistas: segredava-se o nome do pedreiro; um pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamellas o Patarro de Monte Cordova e mais outro mal encarado; mas todos é uma diziam que não tinham visto nada, nem queriam saber de desgraças, com medo á malta do Zeferino.