O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a cama, resfolegando com muita anciedade, gemendo com dôres, e a cabeça um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em tres pelo vigario. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio quando viu a cara ensanguentada do pai, á luz mortiça de uma vela de cebo n'uma placa de lata. D. Thereza com a Martha nos braços, disse ao irmão:—Que miseria de casa! Pede luzes e agua para se lavar aquelle sangue.—E, assim que Martha voltou a si, levou-a para o seu quarto,—que a viria chamar quando o pai a pudésse vêr. Queria retiral-a do espectaculo dos paroxismos.
Quando chegou a extrema-uncção com o prestito clamoroso do Bemdito e o tilintar espacejado da campainha, Martha carpia-se em altos gritos, e pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.
Ella tinha ouvido dizer a uma das visinhas que lhe invadiram a alcôva:—quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino das Lamellas. Juro que não foi outro.—Esta affirmativa cravou-lhe no coração o remorso de ser ella a causa da morte do pai. Queria ir pedir-lhe perdão; rogava á sua amiga que pelas chagas de Christo a deixasse ir ajoelhar-se á beira de seu desgraçado pai. D. Thereza conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão o barbeiro que lhe estava a rapar a cabeça.
Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia assistindo ás obras. Vinha aterrado. Disse ao Osorio que já estava arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um bando de faccinoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai.
O cirurgião sahiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara um pedaço de tegumento, deixando descoberto o craneo que o ferrador da Terra Negra chamára o miôlo. A hemorrhagia era grande, e havia receio de commoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe pôr pannos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Martha e Thereza não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osorio passou a noite na saleta attendendo o brazileiro que lhe fallava muito na sobrinha, na paixão que ella tivera pelo José Dias, e não lh'o levava a mal, pelo contrario.
Ahi pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça, bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lagrimas. O padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que elle estivesse agonisando. Depois aquella agitação esmoreceu n'um dormitar sobresaltado, com a cabeça no regaço de Martha que brandamente lhe compunha o pacho na ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repelliu-a. Fallou no pedreiro que o matára, e recahiu no estado comatoso. O padre Osorio attribuia aquella somnolencia a derramamento de sangue no craneo, um symptoma de morte provavel. O cirurgião veio de madrugada, mandou-lhe deitar sanguesugas atraz das orelhas, e disse ao vigario do Caldellas que estava mal encarado o negocio; que aquelle diabo de somno lhe parecia de máo agouro. Que ia vêr uns doentes e voltava logo.
Martha fazia muitas promessas á Senhora da Saude; dez voltas de joelhos ao redor da sua capella, um resplendor de prata, jejuar a pão e agua seis mezes a fio, não comer carne durante um anno, ir descalça á romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas sentia-se menos opprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa d'ella, e a Maria de Villalva já dizia tambem que fôra ella a causa da morte do seu filho. Uma desgraçada, que vinha assim a causar a morte do noivo e do pai.
O ferido teve uma intermittencia de repousada vigilia. Olhou para a filha, e disse-lhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe. O Feliciano acudiu:
—Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe ha-de faltar. É minha sobrinha; não tenho mais ninguem n'este mundo.
—Eu morria contente—balbuciou o Simeão lacrimoso—se ella fosse sua mulher...