Fez-se um silencio exquisito. Martha abaixou os olhos; a D. Thereza olhou para o irmão a vêr o que elle dizia; o padre Osorio olhava para o brazileiro a vêr como se expressavam as suas idéas; o Feliciano esperava que os outros dissessem alguma coisa. E então o pai de Martha, aconchegando-a de si, com muita ternura:

—Casas com o teu tio, minha filha? É o ultimo pedido que te faço...

Martha fez um gesto affirmativo, e cahiu de joelhos, curvada sobre o leito, a soluçar; depois, deu um grito e escorregou para o chão, em convulsões, com o rosto muito escarlate e a bocca a espumar. D. Thereza e o irmão conduziram-a ao seu quarto. Deitaram-a já socegada, mas n'uma rigidez insensivel, com a bocca ligeiramente torta.

O cirurgião chegava n'esta conjunctura e disse que a rapariga herdára a molestia da mãe, que eram ataques epilepticos; e ao tio Feliciano disse-lhe particularmente que o peior da herança não era a epilepsia; era a demencia que levou a mãe ao suicidio. Que a rapariga era fraca, e tinha sido creada com umas mimalhices de menina da cidade, que estragam o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado com ella, não a affligir, distrahil-a, casal-a, emfim, que seria bom casal-a, e dar-lhe vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque, e ter cuidado que ella não apanhasse a lingua entre os dentes; que lhe mettessem um panno entre os dois queixos, quando lhe désse outro ataque.

—Elle disse que o melhor era casar-se—lembrou o Feliciano ao padre Osorio.

[9]Era o meu actual e pregado amigo Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Pinho Leal, auctor do "Portugal antigo e moderno".

[10]Carta de 10 de junho de 1877.

[11]Quando Pinho Leal publicar as suas Memorias, então se saberá o verdadeiro nome do morto.

[12]Carta citada.