—Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces!
—Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez diabos!—E poz-se a assobiar a Luizinha. Enroscou algodão embebido em aguardente no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até sahirem brancas e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um sibillo egual. Parecia satisfeito, e cantarolava, mezza voce:
Agora, agora, agora,
Luizinha, agora.
Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia, introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente. Levantou o fusil de aço que fez um som rijo na mola e friccionou-o com polvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou a aresta da pederneira que faiscava.
—Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem!—soluçava a mulher.
E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um sfogato:
E viva a nossa rainha,
Luizinha,
Que é uma linda capitôa...
—Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuchos e uma cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto.
A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e regougou:—Máo! ... máo!...
Carregou a clavina com a polvora de um cartucho; bateu com a cronha no sobrado, e deu algumas palmadas na recamara para fazer descer a polvora ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta ligeiramente, uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.