—Credo!—exclamou a mulher com as mãos na cabeça.—Nossa Senhora nos acuda!

—Leva rumor!—e punha o dedo no nariz.

—Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembra-te dos tres annos que penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...

—Já te disse que me não cantes—e relançava-lhe o seu formidavel olhar vêsgo incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo de páo. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse mão na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e depois, voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão.

—Ó Joaquim, vê lá o que vaes fazer!—insistia a mulher, limpando os olhos com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno da Maria da Fonte, despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle cantando n'uma surdina rouca:

Leva ávante, portuguezes,
Leva ávante, e não temer...

—Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.

E o Melro n'uma distracção lyrica:

Pela santa liberdade,
Triumphar ou padecer...

Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'algodão em rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do cano.—Está suja—disse elle—dá cá um todo—nada de aguardente.