—Que não admittia ladroeiras!

E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar que fosse para a Terra Negra.

A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta a sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois galhos do baralho com um murro herculeo, phenomenal. O taberneiro abriu a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços, quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.

Quando, á meia noute, o Alma-negra entrava em casa pela porta do quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o bafo.

O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do Bom Jesus; que estivera tres horas de joelhos diante da sua divina imagem. O marido objectava contra o milagre—que o compadre não lhe dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimára o Zeferino; e a mulher—que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.

Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:

—Emfim, você ganha a casa, compadre, porque mátava Zéférino, se os outros não matam elle, hein?

[XVII]

Celebrou-se o casamento na capella da quinta da Retorta. Foi o vigario de Caldellas o ministro do sacramento, D. Thereza madrinha, e o padrinho veio do Porto, o barão do Rabaçal, um gordo, casado com as brancas carnes velludosas da filha do Eusebio Macario. O padrinho, muito faceiro, dizia ao Feliciano:—Mi pérdoe, amigo Prázins, você si casa com minina mágrita, muito sêcca di encontros. A mi mi dá na tineta para gostar das redondinhas, hein? É a minha philosophia. A mulher si quer roliça, de manêras que a gente ache nos braços ella.