O devasso fazia córar o casto noivo. A Martha, á sobremesa, não lhe percebia umas graçolas obrigatorias em bodas canalhas, que faziam nauseas á aristocratica D. Thereza, muito pontilhosa em não admittir equivocos. O vigario achava no barão a salôbra brutalidade que faz nos intelligentes a cocega do riso que o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o portuguez snr. Luiz d'Araujo nem sempre conseguem quando querem.
A Martha, n'uma tristeza inalteravel, desde que sahiu da egreja. Ao fim da tarde, fechou-se com D. Thereza no seu quarto, abriu o bahu, e tirou do fundo o pacotinho das cartas do José Dias, e disse-lhe:—A senhora ha-de guardal-as; e, quando eu morrer, queime-as, sim?
—E se eu morrer adiante de ti?—perguntou D. Thereza risonha.
—Diga então ao snr. padre Osorio que as queime: porque olhe—e abraçou-se n'ella a chorar, a soluçar—eu ... eu morro, ou endoudeço. Cheguei a esta desgraça; estou casada para fazer a vontade a meu pai, cuidando que elle morria; não sei como hei-de sahir d'isto senão acabando de vez ou perdendo o juizo como a minha mãe ... bem sabe como ella acabou.
D. Thereza Osorio banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas que se dizem ao commum das meninas casadas com maridos repugnantes e ricos.—Que se havia de affazer, que tudo esquecia com o tempo. Ella, um pouco aristocrata por bastardia, não acreditava em melindres de sentimentalidade na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida airada. O apaixonar-se pelo Dias, um bonito rapaz d'aldeia, parecia-lhe trivial; tentar suicidar-se quando elle morreu, para uma senhora lida em novellas romanticas, era um caso ordinario e pouco significativo; porém, condescender com a vontade do pai, casando com o tio, pareceu-lhe um acto de condição plebea, a natureza reles da filha do Simeão que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestações de uma indole artificialmente delicada.
O padre comprehendia mais humanamente Martha, dizendo á irmã:—Ella quando consentiu em casar com o tio já estava doente da molestia nervosa que a ha-de levar ao suicidio. D. Thereza, com o seu criterio um pouco adulterado pelas excentricas heroinas de Sue e Dumas, não podia entroncar aquella rapariga d'uma aldeia minhota na genealogia d'essas parisienses naufragadas em romanescas tempestades. E de mais, se Martha, como o irmão dizia, estava sob a influencia da loucura, a sua desgraça parecia-lhe uma doença e não uma tragedia, segundo as exigencias de uma senhora que tinha lido o mais selecto da bibliotheca romantica franceza desde 1835 a 1845—tudo o que ha de mais falso e tolo na litteratura da Europa. D. Thereza queria mais drama na desgraça de Martha; porque, se alguma poesia elegiaca lhe concedêra pela tentativa de matar-se, toda se resolvia em chilra prosa pelo facto de a imaginar no thalamo conjugal com o arganaz do tio.
Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldellas a fim de dizer a missa de madrugada, e deixára a irmã a pedido de Martha; o barão do Rabaçal escancarava a bocca n'uns bocejos ruidosos e levantava uma perna espreguiçando-se; o noivo olhava para o mostrador do relogio collado aos olhos; e Martha, muito aconchegada de D. Thereza. queixava-se de caimbras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via faiscas no ar, e tinha muito calor na cabeça. D. Thereza dizia-lhe que se fosse deitar, que precisava de recolher-se. Martha pedia-lhe que a deixasse ir dormir ao pé d'ella, pedia-lh'o pela alma de sua mãe, pela vida de seu irmão.
A hospeda comprehendia, compadecia-se, receava o ataque epileptico, precedido sempre das faiscas e caimbras de que se queixava a noiva; mas não sabia como dirigir-se ao marido de Martha a pedir-lhe que se fosse deitar sósinho. Nos seus numerosos romances não achára um episodio d'esta especie. Interveio na critica conjunctura o Simeão, dizendo á filha:
—São horas de ir á deita. O teu marido está a cahir com somno.
Martha fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de colera, n'um arremesso de cabeça erguida, e com os labios a crisparem. Era a nevrose epileptica. Seguiram-se as convulsões, o espumar da bocca, um paroxismo longo de vinte minutos. D. Thereza pediu que a ajudassem a leval-a para a sua cama, e disse com fidalga impertinencia ao Simeão que a deixassem com ella, e não lhe fallassem no marido. Simeão coçava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao barão que a sua sobrinha era atreita áquelles ataques; mas que o cirurgião lhe dissera que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaçal notou que o remedio então bom era, e seria bom começal-o quanto antes. Disse mais chalaças a proposito e foi-se deitar. Feliciano ainda foi saber como estava a esposa; mas já não havia luz no quarto de D. Thereza. Reoolheu-se á cama, e continuou mais uma noite no seu leito solitario, virginalmente.