--Sou de S. Gonhedo--responde ella.
--De S. Gonhedo? Espera ahi.
Abro o «Diccionario geographico», de que ando munido depois dos ultimos acontecimentos. Procuro S. Gonhedo, e não acho.
Começo a suspeitar que o meu amor é de Nod;--que é, pelo menos, amacacada. Disfarço, accendo o meu charuto, e safo-me. É o mais prudente.
De Caim e de sua esposa Catarhina (sem dom: receio{29} que v. s.ª, esquecido dos seus estudos zoologicos, faça a mulher quadrumana de Caim homonima da inspiradora de Luiz de Camoens. Catarhina é o nome de uma das duas tribus da primeira familia de macacos. Veja Milne-Edwards, Dumeril, Lamarck, e a mim, passim)--de Caim e de sua esposa Catarhina procedem, segundo Alexandre Dumas, as mulheres de má raça e condição bravia. Pelos modos, n'esta progenie maldita, os machos são poucos, sem embargo de enxamearem por ahi em barda uns que macaqueam Schlegel e Kant como uma foca póde remedar um acrobata arabe.
A geração de Caim, continuada em Cham, brunida pelo esmeril dos seculos, adelgaçou-se e puliu-se de feitio que já se confunde hoje em dia com a descendencia abençoada de Sem e Japhet.--V. s.ª (permitta o exemplo)--está persuadido que sua senhora é da raça boa, e faz muito bem; mas vá de hypothese que sua mulher amua e trinca o labio porque o visinho resiste a renovar-lhe a cuia. Parece-me que será então acertado reparar se ella n'essa occasião róe o sabugo, se coça os quadris com o dedo indicador, e anda de cadeira para cadeira a dar uns saltos suspeitos. Se este desgraçado presupposto se realisar, v. s.ª não será demasiadamente iniquo desconfiando que está matrimoniado com uma senhora que tem nas veias um litro de sangue de macaca. Feito o descobrimento{30} anthropomorpho (queira desculpar esta gregaria), nenhuma cautella é de mais. O bom siso pela minha boca humilde, aconselha o visinho que lhe dê a cuia, duas cuias, e tres nozes para ella se desarrufar. Se não fizer isto,... estende-se, snr. Raimundo.
Começam a entre-luzir os meus principios ácerca do adulterio. Já achou, visinho?
O adulterio é um fatalismo organico. A mulher de stirpe macaca é irresponsavel do fratricidio e cazamento bestial de Caim. A rôla arrulha, o sagui chia, cada qual segundo a sua natureza glottica. O homem não deve sangrar á ponta de punhal a arteria onde o supremo gerador injectou sangue viciado. Ninguem se lembrou de fazer irmans da caridade as hyenas, nem encarregou os pachidermes de missionarem aos pretos seus visinhos.
O crime deprehende-se da liberdade de o não praticar. A bossa impede o arbitrio.
O homem, que descadeira a mulher victima da fatalidade do seu organismo, será capaz de me desfechar um rewolver á queima roupa, se eu lhe não aceitar a côrte. E eu não lh'a aceito, por que não está na minha organisação aceitar a côrte do masculino nem do neutro. Sou irresponsavel da minha esquivança ás caricias ardentes d'essa pessoa. Não posso amar o sugeito que me enviou uma camelia, ou um frasco de agua de{31} Colonia do Farina. Se esse galan me bater, sobre ser asno, é feroz.