Os legisladores, menos arredios das leis naturaes, estatuem que marido e esposa se divorciem, dada a incongruencia de genios, aggravada pela prevaricação dos reciprocos deveres da fidelidade conjugal. O divorcio, porém, restricto á separação do foro conjugal e bens, não sanêa as feridas abertas na honra. A mulher resvala com o nome do marido a todas as voragens onde a irresistivel condição a baqueia.

Hade elle, por tanto, matal-a para desacorrentar-se do pelourinho do vilipendio? Não; por que mata um authomato inconsciente da sua queda. É como se andasse ás facadas aos seus amigos, por que elles, na sua qualidade de corpos, obedecendo á lei da gravitação, pendem para o centro da terra.

«O divorcio judiciario constitue o cazamento escola de escandalo»--diz o douto dramaturgo do Supplicio de uma mulher.[[9]]--E acrescenta: «A interferencia de juizes é quasi sempre cega ou nociva. Se entre cazados ha motivos de divorcio, deem-lhes plena liberdade de se desligarem». Até aqui o primeiro publicista de França.{32}

Mas divorcio incondicional, rompimento sem clauzulas. Se ha dote ou bens paraphrenaes, a mulher é credora, não já do marido, que é um titulo extincto, mas do detensor incompetente dos seus haveres.

Essa mulher, livre, póde encontrar marido de sua especie, com tres partes de macaco ou mais, que lhe não estorve os instinctos, e ser ditosa, como a esposa de todos os sujeitos de prol e tino,

Que não são de ciumes offendidos.

E, simultaneamente, aquelle homem, desatado do vinculo infamante, póde topar uma descendente de Japhet, esposa leal, sanguinea ou biliosa, mas sobre tudo honrada, que é melhor que lymphatica.

E o sacramento?--pergunta-me o visinho com a Cartilha de Mestre Ignacio em punho.

O sacramento, snr. Raimundo, é um attentado contra a natureza; é, na phraze energica de Girardin:--«uma pretenção impia dos fabricadores de leis positivas, prophetas e legisladores a desfazerem as leis naturaes para refazerem o genero humano sob o nome de Sociedade».

Observe que Girardin foi marido exemplar de Delphine Gay, a mais formosa e illustrada alma no mais gentil corpo de parisiense. Pondere n'isto.