Mas muito mais ponderosa é a questão dos filhos.--Que{33} se hade fazer ás creanças, flores que desbotoam á ourela d'essas sentinas, anjos nitidos que passam deplorativos por entre as lavaredas d'esses infernos?

Os filhos, legitimos ou bastardos, adulterinos ou incestuosos são eguaes perante a mãe. Ella é quem não duvida que os filhos são seus. Receba-os, leve-os, que talvez leve comsigo os esteios do seu rehabilitado decoro. Mas, se o marido os quizer, deixe-lh'os, que bem amparados ficam no seio do amor. Deve de ser immenso o bem-querer do homem que lava com suas lagrimas os estygmas na face do filho da mulher perfida e repulsa.

Pergunta-me o visinho se, em harmonia com estes paradoxos, o cazamento, a alliança sacramental de homem e mulher acabam.

Acaba o que a sociedade fez, violentando o que a natureza tinha feito. Mulher e homem volvem ao que foram.

Target, o collaborador do Codigo Civil da Convenção, responde-lhe melhor do que eu: Onde quer que a sociedade encontrar um homem vivendo com uma mulher, deve reconhecer um consorcio apto para dar aos filhos o direito da legitimidade.

--Paganismo!

Seja o que v. s.ª quizer; mas olhe que já não é bom tom trejeitar visagens e momos quando a razão joeira{34} perolas no lixo da Roma de Aggripa e Seneca, de Catão Censorino e Marco Aurelio. Se o visinho admira nos Congregados e na Trindade muita senhora, devota e escrava de Maria Sanctissima, não se edificaria menos entrando em Roma no templo do Pudor, edificado pelas Veturias, Cornelias, Calpurnias, Sulpicias Pretextatas e Arrhias Marcellas. Estas ou morriam com os maridos amados, ou vingavam-os. O opprobrio não ousava erguer a cabeça petulante de sobre a alta barreira que extremava aquellas matronas das Silias e Octavias, das Apuleias Varilias e das mulheres de Claudio.

O visinho sabe que na Roma pagan, dado que o divorcio pendesse da simples deliberação de um ou de ambos os conjuges, ou ainda do mero capricho do marido immoral--quer elle se chamasse Nero ou Cicero--decorreram quinhentos e vinte annos sem um exemplo de divorcio.

Montesquieu explica o phenomeno: «Marido e mulher soffriam-se pacientemente os mutuos dissabores cazeiros, por isso mesmo que podiam acabal-os; e, só por que tinham livre o uso d'esse direito, passavam toda a vida sem pratical-o».

Ahi está a minha idéa peneirada aos ventos quadrantes da opinião tempestuosa das turbas. Ruja a leôa{35} da hypocrisia na sua caverna--que eu, á laia do varão justo de Horacio, ouvirei sem pavor o estrondear do mundo derruido á volta de mim, visto que tenho assistido impavido aos estrondos de todas as philarmonicas de que sou socio prendado. Impavidum ferient ruinæ.