--Aquelle mata-a! mata-a! zumbia-me nos miolos! Estarreci!.. Como hade a gente jurar que será sempre a mesma, quando o livre arbitrio está dependente de outro? Poderei responsabilisar-me por amal-o sempre? Se me elle sahir abominavel, por sentimentos, e violento, caprichoso e despota, poderei soffrear a minha impaciencia? Se elle me não agradar depois, poderei amal-o?--

Visinho, bacorejou-lhe á prevista menina onde iria parar ao diante, e teve medo. Honrado susto! Não lhe assevero que ella soubesse biologia, nem miologia, nem manuseasse as politicas aristotelicas; mas de tal donzella ha muito que esperar, scientificamente fallando. D'estas vitellas tenras é que se fazem as vaccas sabias e duras.

Mas não se persuada, senhor meu, que a discreta Alice aprezilhe no colo de alabastro a tunica de vestal.{17} Longe d'isso. Tenciona cazar, porque as matronas academicas lhe preleccionam biologicamente que a perpetuidade da especie é condição indeclinavel. Diz ella então muito aforçurada:

--Heide cazar com pessoa cujos sentimentos eu conheça radicalmente; quero que eu e elle saibamos com o que podemos contar, e se as nossas sympathias são reciprocas... Lá do enxoval, que estava prompto, não se me importa já... Eu ia cazar com um sujeito que não amava nem conhecia. Primeiro que tudo, quero amar os sentimentos honestos do meu namoro. Com taes condiçoens, tudo se arranja bem. Seremos depois indulgentes um para o outro.[[5]]

Bastante petisca; mas boa rapariga de lei! E ingenua então... até alli! Confessa que esteve a ponto de cazar com homem que não amava; mas cazava tão de vontade como voluntariamente o regeitou. De sorte que, se não apparecesse o livro de Alexandre Dumas, veja v. s.ª que destino se estava aparelhando para o marido d'aquella senhora!

Ó visinho, sabe o snr.? eu, se tivesse um filho indulgente, dizia-lhe: «Rapaz, se não levas a mal que o almoxarife da caza de Bragança, em Villa Viçosa, te{18} mande agarrar e recolher á tapada como cervo tresmalhado, caza com esta menina perliquiteta.»

Agora, duas paginas sérias, snr. Raimundo.

Cá tenho a pitada engatilhada ao nariz circumspecto. Devo-me ao futuro do meu paiz. Vou enviar-me gravemente á posteridade.

Não me consta que em Portugal, por em quanto, alguma das gentilissimas damas, que recolheram a herança das Sigeas, Alornas e Possolos, haja sahido á liça a esgrimir com o fulminante estylista francez. Parabens á constellação de estrellas que scintillam annualmente no Almanach das Senhoras! Que não baixem da região excelsa em que são contempladas cá d'estas cavernas onde urram alcateas de féras. Se anjos descerem a involverem-se comnosco, sahirão desluzidos, com as candidas plumas incarvoadas do suor negro dos nossos pugilatos. Nós, os gladiadores d'esta arena, se as sanctas estrellas se apagarem, não teremos a quem saudar, moribundos.

Não as induzam exemplos de escriptoras francezas n'esta melindrosa contenda. A sciencia perigosa, que lhes sobeja, é escorregadia, pudor abaixo, até ao desdouro da idéa e da forma. Já lhes não basta a área modesta dos argumentos colhidos nos mananciaes doces do coração e da alma. Rompem as fronteiras das sciencias physicas{19} e graduam chimicamente os globulos cruoricos do sangue de cada mulher.