No final de cada acto, sahia a visitar uma amiga, e dava dous saltinhos quando me erguesse do banco, para que a minha cintura não ficasse sempre occulta pelo parapeito do camarote.

Acontecendo, porém, que a minha cintura lucrasse com o mysterio, não sahia nunca sem lançar com languida graça uma pelliça pelos hombros. Nos bailes não sei o que faria; mas o que devia fazer era não tocar nunca n'um taboleiro, e acceitar com mostras de grande sacrificio a instada offerta d'um fôfo, ou d'um rebuçado de chocolate. Liquidos, excepto agua limpida, nenhum. Nos jantares tomaria duas colheres de sôpa, o pescoço de uma rôla, ou a aza d'um frango. E isto mesmo seria vagorosamente triturado pelos dentes preguiçosos, com ar de victima sacrificada ás conveniencias d'uma sociedade, que tem o prosaismo de comer nas horas vagas. Fructas, comeria uma laranja, uma amendoa torrada, e o resto do tempo entretel-o-ia com o palito.

Como é natural que me retirasse com fome, em minha casa, nas horas silenciosas da noite, quando a natureza já não respira, como se diz nos primeiros capitulos de quasi todos os romances, comeria de modo que, no outro dia, me levantasse pallida pelo effeito d'uma indigestão.

Estaria duas horas diante d'um espelho a desalinhar-me, porque o desalinho é o mais melindroso toucador de uma mulher, que conhece profundamente as irrisorias pieguices do homem.

Cheguei á especialidade em que eu muito queria ser mulher, pelo menos na estação do theatro lyrico.

Se vivesse no Porto, colheria as melhores flôres da minha corôa na estufa do real theatro de S. João, e escolheria de preferencia certos catos reaes que eu lá conheço. Eu denomino cato real o leitor, qualquer que elle seja, com tanto que tenha escripto algumas sandices e dito outras tantas a respeito do scepticismo. É cato, de trapeira pelo menos (esta classificação não é minha: pertence a um espirituoso folhetinista que d'antes classificava catos, e actualmente elle proprio se fez cato politico, e vive nas estufas doentias do jornalismo sério), é cato de trapeira, dizia eu, todo aquelle que chora o eterno desalento da sua alma despoetisada, e não desencrava a luneta indecentemente enorme da primeira mulher, que teve o descuidoso passatempo de reparar cinco minutos na sua pallida physionomia.

Com estes é que eu me queria encontrar, sendo mulher, e mulher litterata, porque, do contrario, agradeço á Providencia o favor que me fez de me atirar qual sou á torrente dos acontecimentos masculinos.

Mulher, e litterata, sacrificaria temporariamente a minha isempção a um d'esses scepticos desgrenhados, que se balouçam na plateia como se, insaciaveis de espirito, precisassem dar á materia todos os repellões, que as turbas comtemplam como terremotos do talento.

Logo que eu conseguisse prender-lhe a attenção, aventuraria um d'esses sorrisos, que me não custariam nada, sem que por isso me parecesse com certas mulheres, que se escangalham em risadas alvares e frivolas, mostrando a profundidade dos engastes mandibulares como quaesquer cosinheiras nos seus colloquios amorosos com os cosinheiros respectivos.

Eu não me riria nunca; sorriria algumas vezes, e quereria que o meu sorriso fosse recebido como formalidade da etiqueta para com os ditos semsabores das pessoas que me rodeassem, que seriam quasi todas d'uma fabulosa semsaboria.