O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou, foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma excellente professora.

Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados, dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu viver.

Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança alguma de a salvar.

A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.

Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.

D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada, que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.

Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado; abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a glorificação de suas virtudes.

Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela pureza em que sempre vivera.

XIII.

Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo antecedente.