Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme, pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella conduz, que tem lugar o que passamos a contar.

Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio, e commovidas.

A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.

O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos embranquecidos antes do tempo.

A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos ramos e cestinhos.

A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.

--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?

--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por que, quem sabe se recahirei?

--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura e reconhecimento.

--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo? Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo, a que chamam mundo?