--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que vos é tão dedicada como se fôra vossa filha?

Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.

--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos, e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha querida filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia, para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa, minha filha querida.

Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora.

As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente, o que a commoção lhe embargava nos labios.

Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.

A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha, mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas, que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que se estabelecera entre ella e D. Julia.

A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na morte.

Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não estiolassem, dirigiu-se á viscondessa.

--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto da campa de minha avó.