--Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma cousa, não é assim?
--Vêde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a custo,--eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado. Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu.
Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse:
--Para hoje já é de mais, ámanhã...
--Perdôe-me, snr.a D. Thereza,--replicou Rosa,--mas é melhor que eu termine hoje,--e continuou:
--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mãi cahiu de cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que minha avó me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha mãi. Um dia abraçou-me e disse-me:
«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que será de ti?
Trabalharei, lhe respondi.
És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te receba sob a sua santa guarda, e te não abandone. Nunca desampares tua avó, sê-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não pôde, abraçou-me e á avósinha, e expirou.»
Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e soccorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora, pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro. Minha avó tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos pés de D. Thereza--não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a Deus pela vossa vida e felicidade.