Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa.
--E que has-de fazer na tua aldêa?
--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem...
D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração.
--Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa.
Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa, agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua gratidão.
IV.
Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa. Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal; depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava, fiava na sua roca.
Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como o faria a melhor mulher de casa.
D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.