—Pois bem, Luiz, manda-me para os meus filhos, e fica tu em Paris.
—Não irás, Marianna. Has de ir comigo.
—Hei de ir já para minha casa... Tenho um presentimento que morrerei longe dos meus filhos... Desliga-te de mim, faz o que quizeres; mas não sejas tão mau, que me obrigues a acompanhar-te nos teus desatinos.
Esta afflictiva scena passava-se n'uma estação onde parára a diligencia para os passageiros almoçarem. Luiz da Cunha deixára sua mulher, quasi de joelhos, e viera para uma janella trautear uma aria. Depois, irritado pelo imperioso hei de ir já! voltou-se para dentro com arremesso, crusou os braços, fez um gesto affirmativo de cabeça, e deu uma d'estas risadas cortadas que significam desprêso e ameaça.
Marianna sentiu-se cahir desamparada, desvalida, na convicção de que seu marido era um malvado. Vendo-se sósinha, tremeu da sua situação. Forte em todos os sentimentos, tal terror se lhe incutiu, que receou pela vida. Como a avesinha, escondendo a cabeça sob a aza para não vêr o assassino que lhe mede com a pontaria o coração, Marianna escondeu a face entre as mãos, cambaleou um momento, e recuou sobre um canapé, onde cahiu desfallecida.
Luiz da Cunha, vendo de um lance de olhos todos os resultados d'um possivel divorcio, ou mais ainda, da morte de sua mulher, reprehendeu-se da inconveniente aspereza, intentou reconciliar-se com Marianna, e começou o seu novo plano, rapidamente concebido, tomando-a nos braços, chamando-a com ternura, e cobrindo-a de beijos.
Marianna viu com espanto a doçura dos olhos de Luiz,{131} e por pouco não cede ao impulso de abraçal-o. A que, momentos antes, tremêra de mêdo diante do malvado, eil-a agora, quasi perdoando, arrependida do criminoso susto que tivera! Quantas mulheres assim! Quantas transfigurações da martyr que pena, para o anjo que perdôa! Quantas lagrimas o homem enxuga com um falso sorriso!
—Não me tenhas odio, Marianna...—dizia elle, inclinando-a sobre o braço esquerdo, e anediando-lhe os cabellos.
—Odio... não tenho; mas queres que eu não soffra?!
—Quero... farei o que tu quizeres... Não queres que vamos a Paris? Não iremos. Vamos para a Italia, sim?