N'esta viagem, não ha memoria d'alguma aventura digna de menção na biographia do filho de Ricarda. Contaram, porém, os seus companheiros de viagem, que tal homem se fizera repulsivo a todos pelo desprêso com que a todos repellia. Era intratavel, e tinha accessos de frenesi assustadores. Corria as cortinas do seu beliche durante{144} o dia, e passeava toda a noite na tolda. Se em noites calmosas os passageiros tambem subiam a respirar, Luiz da Cunha descia com arremesso a isolar-se na sua camara.
Vê-se que o cynico não tinha o riso despejado da escola. Soffria; mas não era a suave melancolia do solitario sem os remorsos: era o assomo colerico, o concentrado rancor do algoz que não póde estalar os grilhões que o condemnam a morrer no desespêro da immobilidade.
Pois a hora do remorso não soára para este homem?! Ainda não. Talvez nunca. O remorso é o triumpho do anjo bom. Luiz da Cunha pactuára uma alliança insoluvel com o demonio, cuja existencia não é para mim uma fabula, quando me vejo impellido ao mal, e cêdo com pesar ao impulso, encarando o bem por que suspiro. A lucta entre as duas potencias existe no coração humano, em quanto a consciencia sabe estremar o crime da virtude. Mas, perdidas as noções do dever, raspada de sobre o coração a palavra «honra» a lucta já não existe, o anjo bom fugiu espavorido, o remorso é impossivel.
E era-o para Luiz da Cunha.
Esse fugir da sociedade, odiando os homens, era o encovar-se do tigre, sequioso de prêsas, raivando de fome, e espreitando com olho abrazado a victima desprevenida.
Luiz contava os dias de viagem com frenetica anciedade. Só, imaginára todas as hypotheses terriveis do seu futuro. Dava-se como possivel a vingança de Marianna, privando-se não só da tutella dos enteados para diminuir os redditos, mas negando-lhe a elle uso-fructo da sua propria meação. Verificar esta horrivel conjectura era o seu desejo: vingar-se de qualquer modo era a sua tenção, se uma bem estudada impostura o não reconciliasse com Marianna.
Chegou a Buenos-Ayres, e na lista dos estrangeiros que pernoitavam no mesmo hotel viu o nome de Francisco José de Proença. Saibamos de passagem que Proença era um official do exercito portuguez, que seguira as bandeiras de D. Miguel. Em 1833 expatriara-se para o Brazil. Filho d'um brigadeiro, visitava-se com João da Cunha, e fôra da roda de Luiz.{145}
O marido de Marianna encontrára-o no Rio de Janeiro, luctando com a adversidade, pobre, sem emprego, vivendo do trabalho esteril de amanuense d'um advogado. Soccorreu-o com um emprestimo de dinheiro para tentar o trafico da escravatura, pensamento dominante de Proença.
O portuguez fôra bem acolhido por Marianna, em respeito a seu marido. Civil, bem morigerado, e prudente, colhêra muito na escola da desgraça. Fez-se bemquisto, adquiriu proveitosas relações, alcançou aura de honrado, apesar do seu plano de mercadejar com pretos. Este trafico não deshonrava ninguem. Era como qualquer outro, um ramo de commercio, que germinou illustres vergonteas, as quaes transplantadas depois em Portugal, bracejaram copadas sombras onde se acoitam em torpel as mercês, e os sacerdotes da apotheose.
Tal era o protegido de Luiz da Cunha em Setembro de 1840, quando o seu protector, sahindo do Rio para a Europa, o recommendava aos tios de sua mulher.