Pouca gente respondia physiologicamente a tal reparo, porque muito pouca sabia que Luiz da Cunha era filho d'uma mulata.

Agora é que ninguem poderá allegar ignorancia. Eu tenho a honra de responder á curiosidade, que foi longo tempo a mortificação de pessoas muito sizudas.

Sabia-se geralmente que o nascimento de Luiz fôra uma das multiplicadas aventuras amorosas do fidalgo, seu pae; mas a outra metade productora, o complemento da machina, em que o mysterioso artefacto se fabricára, isso é que os amigos intimos de João da Cunha e Faro ignoravam.

O leitor não perderia muito ignorando tambem. Ainda assim, se não quizerem passar ao capitulo segundo, tambem nada perdem, e ficam sabendo tanto como eu.

João da Cunha frequentára a universidade de Coimbra, quando era mania dos fidalgos deixarem medrar seus filhos na seva opulenta d'uma fidalga estupidez. Em quanto seu irmão mais velho estudava veterinaria para se não deixar enganar em compras de cavallos, João da Cunha estudava mathematicas para se distinguir na carreira militar.

Cursava o segundo anno, com admiravel aproveitamento, quando chegou a Coimbra um moço brazileiro, filho de portuguez, casado com uma mulata, filha d'um rico fazendeiro de café, e fabulosamente rica, segundo era fama.

A intenção do brazileiro era formar-se em naturaes{7} para scientificamente explorar os vastos terrenos do Mexico, onde seu sogro desenterrára o mais grosso do seu cabedal.

E, com effeito, matriculou-se, ao mesmo tempo que sua mulher, desejosa de cultivar o espirito, recebia em casa lições de francez, e inglez.

Ricarda chamava-se ella. Não lhes quero dizer que era bonita, porque receio que zombem da minha franca ingenuidade; porém, não chegue este capitulo ao fim, converta-se-me esta penna em sovela, se eu não gostasse da senhora D. Ricarda, e a não amasse com o delirio de João da Cunha.

Pois elle ousou?... Ousou... Miserias inherentes ao peccado original! O primeiro homem cahiu, e bem forte devia ser esse primeiro homem, sahido das mãos do Creador, com toda a substancia e rigidez d'uma obra perfeita, com todas as harmonias e segredos para desmanchar o sortilegio da tentação!... Como não cahiria o academico, degenerado pelas fraquezas de tantas gerações que vieram até elle, desde o Eden?