Luiz da Cunha, ressentido das grosserias do filho do retrozeiro da rua das Flôres, espaçou as suas visitas a casa d'elle. Romperam-se, portanto, as hostilidades. O visconde ameaçava a enteada de retirar-lhe as mesadas. Luiz da Cunha offerecia-se como irmão a Assucena, quando seu estupido padrasto a desamparasse.

E tudo isto exacerbava a paixão de Assucena, que, agradavelmente humilde, não sabia resistir ao amante, para obedecer ao tyranno da sua alma.

A prelada do convento recebeu do visconde poderes, que nunca, até então, exercêra sobre o coração das professas, e muito menos das seculares.

Animada pela indomita Leonor Machado, a neta do arcediago desobedecia, correndo pressurosa á grade, quando Luiz da Cunha apeava no páteo. Alli, a pobre menina alliviava da sua dôr oppressiva, chorando, e bebia a longos sôrvos o balsamo, que o filho de Ricarda, de antemão, trazia preparado em estudadas palavras de esperança.

Mas qual esperança era essa? Que planos eram os d'elle?

Muito communs, e muito infames.

Luiz da Cunha, invocando o seu eu d'outros tempos, encontrou-o. Pediu-lhe conselhos, e recebeu-os. Aventou uma trama que não é nada extraordinaria, porque não cansam por ahi cavalheiros muito probos, e exemplares a todos os respeitos que a praticaram com prosperos resultados.{53}

O filho de João da Cunha sabia que, morto seu pae, os successores do vinculo viriam desalojal-o do ultimo palmo de terra. O futuro dava-lhe cuidado. Os poucos bens de livre nomeação estavam hypothecados a dividas enormes, contrahidas por sua causa, depois que as preciosas joias de Ricarda foram desbaratadas em desperdicios do pae e do filho. João da Cunha, segundo o pensar dos medicos, não resistiria a um dos ataques cerebraes que repetidas vezes o ameaçavam com a morte, annunciando-se por uma sombria tristeza, e desordem de ideias, á maneira d'aquella em que o vimos censurar o amor do filho a Assucena. Luiz teve o bom senso de se julgar desvalido apenas seu pae fechasse os olhos. Precisava enriquecer-se e grangear com tempo uma fortuna, empregar para isso esforços e habilidade, embora aconselhados pela desmoralisação.

Entendeu, portanto, que Assucena receberia um bom dote do visconde, quando esse dote lhe fosse imposto como resgate da deshonrada filha de sua mulher. Para isso era necessario tiral-a do convento, diffamal-a, forçar a viscondessa a influir no dinheiro de seu marido.

O calculo parecia-lhe infallivel a elle. Assucena prestava-se maquinalmente á vontade do amante, por isso que sua mãe acabava de lhe fazer sentir que o visconde resolvêra fazêl-a entrar n'um convento do Minho, em Bairão. Era necessario apressar o desfecho. Leonor Machado abundava nas ideias do seu primo, e prometteu coadjuvar Assucena na fuga, pela sua casa, que era paredes meias com o muro da cêrca, sobre que se abria por um postigo. Luiz da Cunha comprou o hortelão, que devia abrir-lhe a porta travessa do pomar. Animou a timida menina a descer uma escada que lhe foi içada ao postigo. Recebeu-a nos braços murmurando o vigesimo juramento de nunca desmerecer a confiança que lhe merecia, e entrou com ella na mesma sege em que muitas vezes entrára com Liberata. Desde esse momento, qual das duas teria um melhor futuro?