—Odio é muitas vezes demasiada importancia ao que é sómente despresivel. Eu quero que Assucena se lembre de Luiz da Cunha para perdoar-lhe no seu coração, conversando com Deos, se os infortunios d'esse homem forem taes, que possam attribuir-se a expiação do crime em que Assucena foi a primeira victima.

—Perdoar-lhe... eu!

—Não gosto d'essa exaltação de cólera, filha. Em quanto ella existir, não está cauterisada a ferida. Eu vou experimental-a.

Bernabé Trigoso contou as scenas observadas por Madureira, e as outras colhidas de informações que eram já do dominio publico. Assucena escutou-as com attenção.{89} A arte valeu-lhe muito. Manteve silenciosa impassibilidade, quando o conego esperava alguma commoção. Mas, apenas livre das vigilancias de Perpetua, fechou-se no seu quarto, e chorou. O seu soffrimento devia ser um tumultuoso acervo de muitas dôres: odio, amor, ciume, saudade, desesperação, consciencia da sua quéda nos braços de tal homem, a preferencia em que era sacrificada a uma mulher perdida!

O incidente passou com alguns dias de profundo abatimento. As visitas de Rosa Guilhermina, as diversões domesticas, que o conego lhe dava despertando-lhe o gosto pela musica, pela pintura, prendas em que se distinguira no collegio; e, de mais, a enraisada affeição com que pagava pequena parte da amizade que lhe dava esta familia, considerada a sua, pareciam tornal-a indifferente ás reminiscencias, se ellas existiam, das suas passadas desventuras.

Assim correram dez mezes, que eu deixo passar sem analyse, porque em poucas linhas se diz que a viscondessa de Bacellar recuperára, se não um resto de contentamento, que perdera com a desgraça da filha, ao menos um ar de saude, que os medicos lhe não promettiam. O visconde, preoccupado com a alta e baixa de fundos, esqueceu a affronta recebida nos Paulistas, e nunca perguntou o destino de Assucena. Luiz da Cunha de quem no proximo capitulo fallarei mais de vagar, vivia com Liberata. João da Cunha estava, se não rematadamente doudo, ao menos tres partes do dia, fechado no seu quarto, dizia em voz cavernosa cousas inintelligiveis.

Ao cabo de dez mezes Bernabé Trigoso adoeceu, e prophetisou a sua morte, antes que os medicos lh'a mostrassem n'uma das pontas do fatal dilemma.

O seu primeiro acto foi um testamento verbal, dito a sua irmã, fechando-se com ella em longa prática. Os fins da sua vida foram suaves, tranquillos, e auxiliados de todos os soccorros espirituaes. A viscondessa de Bacellar ajoelhou muitas vezes aos pés do seu leito. Assucena, sempre ao lado do enfermo, não podia chorar na presença d'elle, porque o venerando velho dava visiveis signaes de que lhe era custosa a morte, se via lagrimas inuteis nas faces da que elle chamava a sua corôa de triumpho sobre os vicios{90} da terra. A filha de Rosa Guilhermina só acreditou na perda do seu bemfeitor, quando o moribundo apertou entre as suas, quasi frias, as mãos de Perpetua e as d'ella, dizendo-lhes: «é agora!...» cerrando os olhos sobre tudo que lhe era caro, fechando os labios com a palavra «Deos» e aceitando, já no limiar da eternidade, convertidas em flôres, as lagrimas, que enxugára aos seus irmãos de exilio.


O conego Bernabé Trigoso passava por pobre, attendendo á sua velha chimarra, ás suas sempre velhas botas de cano alto, e ao seu arruçado tricorne. O seu espolio, só conhecido de sua irmã, era dinheiro, herança de seu pae, de seus avós, thesouro até preciosissimo para a numismatica, pela variedade de moedas de prata e ouro desde D. Affonso III.