—E quando partiremos, João?—perguntava Ricarda.

—Logo que eu te veja convalescida de modo que possamos viajar sem perigo.

—Pois eu não estou boa?

—Ainda não. Faz ainda ámanhã um mez que soffreste muito... para fazeres completa a minha felicidade... Um filho teu, Ricarda!...—O brazileiro ouviu o ciciar tremulo d'um beijo.{12}

—Mas que podemos recear agora? Vamos embora de Portugal. Consegui que vá comnosco a ama de leite do nosso Luizinho. Não nos falta nada... Olha, João, eu não posso assim viver tão fugida do mundo. Não temos necessidade d'isto. Se queres que eu assim viva, obrigas-me a crêr que eu pratiquei um grande crime, pelo qual devo ser proscripta da vida.

—E não vivo eu tambem proscripto da sociedade, para viver comtigo só?

—Não ha comparação. De dia vives com os teus, de noite comigo. Eu queria que tu viesses aqui passar sósinho, com o coração cheio de saudades, as horas aborrecidas d'estes longos dias... Vive sempre ao pé de mim, João, e eu viverei contente em toda a parte.

—Pois partiremos, minha filha. Mas é necessario fugir, porque meu pae de certo me não deixa sahir de Portugal. A morte de meu irmão morgado veio tolher o meu futuro. Meu pae quer entregar-me a administração da casa que me pertence, e eu, habituado a obedecer-lhe desde creança, acho-me prêso de braços quando é preciso ser mau filho...

—Ser mau filho!...—atalhou Ricarda com resentimento.—Antes ser mau com a pobre mulher que não sentiu os braços prêsos para ser má esposa... não é assim?

João da Cunha sentára-se no banco de pedra fronteiro ao caramanchão, em que o brazileiro retrahia o halito para não perder uma palavra, em quanto a longa distancia lhe não permittisse uma pontaria infallivel de pistolas que lhe oscillavam nas mãos convulsas.