—Então eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar?
—Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu ignoravas quanto eu te amava, e eras minha proxima parenta, filha de uma prima de minha mãe. Hoje que sabes que te amo, não posso, não me consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de dinheiro.
—Então não quero que vás—accudiu ella—que tu não podes ir á tua custa…
N'este comenos, Theodora escuta muito attenta um rumor de campainhas, e brada:
—É uma liteira! Será o meu homem?
Corre a uma janella; o primo vae depoz ella: affirmam-se na liteira que desce uma congosta, e reconhece Calisto Eloy, não pela figura; mas por que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Theodora espede tres ais, que pareciam de ave nocturna, e perde os sentidos. Lopo amparou-a nos braços, foi sental-a n'uma cadeira incourada de espaldar alto, e desceu ao pateo a receber nos braços o primo Calisto de Barbuda.
XXX
*Como ella o amava!*
O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepção e despedida que deu ao mestre-escola.
A sua felicidade era d'aquellas que o possuidor receia, a cada hora, perder; e o desaccordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores grandissimos. De todos, o de que elle mais se temia,—o dissabor por excellencia monstruoso—era a vinda de Theodora a Cintra, a isso aguilhoada por o professor de primeiras lettras, azedado pelo desprezo. Envergonhava-se elle, além de muitas outras vergonhas, que a morgada de Travanca lhe apparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o estomago, com as ancas desprovidas de balão, com a cara incavernada n'um chapéo de 1832, que lá chamavam barretina, de immensas orelhas de palha amarellada pelo rodar dos annos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de toda a gente, e especialmente aos de Iphigenia.