Ergueu-se ella arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoço exclamando:
—Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te não tornava a enxergar!
—És tola, és tola, prima!—disse elle, assás incommodado com o apertão do abraço—Pois eu não havia de tornar?! Quem te metteu essa na cabeça?
Theodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu n'um choro desfeito.
—Que tens tu?—perguntou elle.
—Como tu estás mudado! não me pareces o meu homem!… Corta essas barbas; por alma de tua mãe, corta-me essas barbas, que pareces o diabo, Deus me perdôe!…
Calisto sorriu-se, com um profundo tédio de sua mulher. N'aquelle instante alanceou-o mortalmente a saudade de Iphigenia. Aquella casa de Caçarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, d'aquelle inferno alagado e frio de que falla o padre A. Vieira.
Começou a passeiar na sala, e a despedir baforadas de anciada respiração do peito. A mulher não lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em quando arrancava um ai das entranhas.
—A fallar verdade—observou Lopo de Gamboa—estás um homem completamente differente! E o caso é que pareces muito mais novo! Já nem andas corcovado, nem tens aquella proeminencia da barriga. Olha os ares de Lisboa o que fazem, primo Barbuda!
Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquillo, sorrindo-se. Tirou da algibeira um charuto, e accendeu um phosphoro. Eis que a mulher rompeu em mais desentoada choradeira, dizendo: