—O meu homem a fumar!… Que feitiçaria te fizeram, Calisto!…

—De maneira, disse o morgado vencido pela impaciencia, de maneira que me recebes com choradeiras, e observações estupidas, Theodora! Ora acabemos com esta feia comedia, e manda-me preparar jantar, que preciso comer e dormir.

Saiu Theodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se, pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que tudo aquillo n'ella era rudeza e bondade do coração.

—Bem sei, bem sei…—disse Calisto Eloy, e recolheu-se á sua bibliotheca, a principiar uma carta, que dizia:

«Minha querida Iphigenia.

Não te asseguro tres horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui viver tres dias. Não é enôjo, é peior, é horror o que me faz tudo isto! Deixa-me pedir coragem ao teu retrato. Ó imagem da filha do meu coração, salva-me, resgata-me, arranca-me d'este tumulo! Ó consoladora d'esta agonia sem nome, vale-me, tem mão n'esta vida, que me foge…»

Entrou Theodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir á cesta dos ovos, de andar á pilha da mais gorda gallinha.

Correu a abraçar-se outra vez n'elle com mais possante enthusiasmo, emquanto o marido com um braço a cingia ao peito, e com o outro escondia o retrato.

—Meu Calistinho—suspirava a esposa palpitante—meu amado marido, não tornes mais para Lisboa, eu não te deixo sair mais de tua casa!…

—Que remedio senão ir, Theodora!…—disse elle—Sou obrigado por esta desgraçada posição de deputado a assistir mais algum tempo na capital.