—Não é isso, não é isso!—clamou ella, saindo-lhe dos braços, que a largaram facilmente—Bem sei o que é…

—Sabes o que?—interrompeu com violentada placidez o marido—Sabes as calumnias que te veiu contar o Braz, o villão que se vingou como canalha por lhe eu não alcançar o habito de Christo! É o que faltava! pendurar a imagem da cruz n'um peito cheio de tanta porcaria!… Então que te disse elle?…

—Que tinhas lá outra… e que te viu a passeiar com ella.

—Viu-me a passear com uma nossa parenta, viuva de um general. Quem disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de perguntar-lh'o diante de ti. Manda-o chamar á minha presença.

—Agora mando! que o leve a breca!—disse Theodora com alegre aspecto—Como tu vieste, foi o que eu quiz; agora, pilhei-te cá, e não te deixo ir embora. Mas tu has de cortar estas barbas, sim? e não estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estomago, não?

O tom e gesto caricioso, com que ella dizia isto, não moveu medianamente o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos languidos amorinhos com que a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braços.

—Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje hão de ir para Miranda, disse elle, afastando brandamente a esposa. Vae-te embora, e logo conversaremos.

Theodora estava n'um d'aquelles elevados gráos de amoroso sentimento, em que a mulher menos esperta conhece, que é desamada. Repellida d'aquelle modo, ainda as lagrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito seccou-as.

—Não me podes vêr á tua beira! disse ella com altiveza. Vê-se mesmo na tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e já estás a fallar na ida para Lisboa. Escusavas então de cá vir. Mal haja a hora em que saiste d'esta casa. Já não tenho marido!…

N'este ponto, não pôde represar as lagrimas. Acocorou-se no chão a chorar, com a cara mettida entre os joelhos.