A desesperação de Theodora augmentava á medida que a fleugma do marido lhe cravava o dardo do desengano no coração ainda fiel. Começou a pobre mulher a saltar no pavimento, sem proferir sons articulados. Expedia uns grunhidos roucos, que fizeram pavor a Calisto. Este feiíssimo tregeitar desfechou n'um insulto nervoso, com symptomas epilepticos.

A commiseração feriu as estragadas entranhas do morgado. Foi apanhar a mulher do chão, reteve-lhe os braços que escabujavam, e levou-a d'alli para um leito, onde a deixou entregue ás criadas e ao primo Lopo de Gamboa, que vinha entrando.

Passada a crise, Theodora ardia em febre, e dava pouco tino das pessoas que a rodeavam. Pareceu-lhe, porém, sentir um beijo nas costas da mão esquerda; e, olhando apressada na supposição de que era o marido, viu o rosto lastimoso do primo Lopo, que lhe disse a meia voz:

—Esquece o ingrato, prima!… Guarda a tua vida para quem te ama!…

Calou-se, porque entrava uma criada com um chá de sidreira e macella.
Tomou elle das mãos da criada a chavena, e ministrou o charope a
Theodora, que o foi bebendo com muitos vágados da cabeça desfallecida
para sobre a espadua de Lopo, que se ageitára para amparal-a.

Á hora final Calisto entrou ao quarto, e não se commoveu. Disse algumas breves e seccas palavras de despedida, acrescentando que fechado o segundo anno da sua legislatura, viria para casa.

Theodora ainda balbuciou:

—E deixas-me assim doente, homem?

—Esse incommodo é passageiro, prima. Logo que tu reflexiones um pouco, levantas-te curada. Mal da patria, se os deputados casados obedecessem aos caprichos das mulheres, que lhes impedem irem onde o dever os chama. Pensas assim, porque foste educada rusticamente. Era minha tenção tirar-te d'aqui, levar-te para terra de gente, dar-te alguma educação, para depois te poder levar comigo para qualquer terra culta; vejo, porém, que desatinas e te fazes creança n'uma edade impropria de ciumes.

—Olha que não és mais novo que eu!—bradou ella.—Tens quarenta e quatro e eu quarenta.