Pareceu-lhe tambem pesada e salôbra a agua.

Recorreu ao seu classico Luiz Mendes, no artigo agua, e leu que o chafariz de El-Rei dava uma lympha gostosa e de suave quentura, a qual limpava a garganta de toda a roquidão, e afinava as vozes, e assim, dizia o classico, não errará quem disser que ella é causa das boas vozes que em Lisboa docemente ouvimos cantar; e tambem dos bons carões que conservam as mulheres.

Em quanto aos bons carões das mulheres, Calisto, que, de um relancear honesto de olhos, observára os rostos pallidos e esgrouviados de algumas senhoras de Lisboa, não podendo arguir de fallacia o dizer de Luiz Mendes, attribuiu á degeneração dos costumes e raças o descarnado e amarellido das caras; no tocante á suavidade das vozes, ficou indeciso, não querendo desmentir o seiscentista, nem formar conceito por uns grunhidos de cantaróla barbara com que os vendilhões pregoavam os comestiveis.

Todavia, como a agua do chafariz de El-Rei aclarava o orgão vocal, e Calisto, á força de berrar ao pé da açuda e azenhas, estava um tanto rouco, mandou buscar um barril d'aquella salutifera agua, que o Mendes de Vasconcellos compára á das fontes camenas. Bebeu á tripa fôrra o deputado, e teve uma dôr de barriga precursora de febres quartãs. Valeu-se ainda do seu classico, e por conta d'elle mandou buscar á Pimenteira outro barril de agua, a qual, diz o citado author, se busca para os doentes de febres.

O velho criado e enfermeiro, quando viu o seu amo encharcado e cada vez peior, foi de moto proprio em cata do cirurgião, o qual deu o morgado rijo e fero em quinze dias com algumas beberagens quinadas.

Desde então, Calisto Eloy não bebeu senão vinho, e melhorou da garganta e do espirito, um tanto quebrantado, recitando, a cada garrafa que abria, o proverbio da sagrada escriptura:—Vinum bonum laetifical cor hominis.[4]

Não obstante, o descredito do seu classico deveras lhe doeu, mormente pelo tom de mofa com que o cirurgião enxovalhou as cãs do honrado e lusitanissimo escriptor Luiz Mendes.

Apenas convalescido, Calisto abria outro livro da mesma edade, escripto por identico motivo, para averiguar se o author do Sitio de Lisboa claudicára como patranheiro em materia de chafarizes.

O bacamarte consultado era a Fundação, antiguidades e grandezas da muito insigne cidade de Lisboa, etc., escripto pelo capitão Luiz Marinho de Azevedo.

—Cá está!—exclamou Barbuda em soliloquio—cá está explicada a minha dôr de barriga! era destemperança do figado.