O deputado acabava de ler o seguinte periodo de Luiz Marinho:

«Encareceu Plinio muito a agua, que vinha a Roma da fonte Marcia, e Vitruvio a das fontes Camenas, porque nasciam quentes e eram saborosas no gosto, sendo por esta causa muito sadias e proveitosas para conservar saude. E posto que (sic) Luiz Mendes de Vasconcellos queira que por estas propriedades tenha a agua do charariz d'El-Rei as mesmas qualidades; a experiencia mostra que, sendo suave no gosto, o não é nos effeitos, porque lhe attribuem os medicos a destemperança do figado, que muitas pessoas padecem, e de que procedem varias enfermidades.»

—Fie-se lá a gente!—monologou o deputado.—É preciso cuidado com os classicos a respeito da agua de Lisboa.

E, proseguindo na leitura, encontrou confirmada a maravilha de se afinarem as vozes com o uso da agua do chafariz d'El-Rei, por estes termos:

«É causa das boas vozes dos musicos naturaes de Lisboa, ou que n'ella moraram, que tanto lustram em sua real capella, e na da corte de Madrid[5], conventos e egrejas cathedraes d'este reino e do de Castella: excellencia que tambem se acha nas mulheres, cuja feminina voz enleva os sentidos, como se experimenta ouvindo cantar as religiosas dos mosteiros d'esta cidade, em que mais parece se ouvem córos de anjos que vozes humanas.»

Á primeira vez que saiu, andou Calisto em demanda dos conventos de freiras, e das festividades de cada um. Disseram-lhe, em face de um repertorio, que a mais proxima festa era, no domingo immediato, em Santa Joanna. Foi Calisto á festa para ouvir cantar as freiras. Não lhe pareceu cantoria o que ouviu: eram tres narizes roufinhando destoantes. Calisto saiu do templo, foi ao palratorio, chamou a madre-porteira, e disse-lhe, com a sua candura de bom homem, que recommendasse ás senhoras cantoras a agua do chafariz d'El-Rei. A madre ficou passada do disparate, e voltou-lhe as costas.

Como quer que o morgado da Agra de Freimas não fosse homem que estudasse as materias perfunctoriamente, quiz esquadrinhar a respeito de aguas toda a substancia d'este importante elemento.

Decepções sobre decepções!

Quando morára na Alfama, observára elle que, n'aquelle bairro, as mulheres eram sardentas, rôxo-terra, e crespas de pelle. Pois o classico Marinho saía-lhe com este desmentido aos seus proprios olhos:

«Tem mais outra propriedade occulta a agua do chafariz (d'El-Rei) que é conservar os rostos das mulheres, que com ella se lavam, em uma alvura engraçada, e côr natural tão encarnada, que não necessita de unturas, nem confecções, com que ellas se envelhecem antes de tempo: o que se vê claramente na vantagem que as de Alfama levam ás dos outros bairros no carão, rosto mimoso, e côr que logo se conhece por natural; e, se bastára isto, por desengano ás que as usam postiças, não fôra pequeno o fructo, que se tirára de ler este paragrapho, havendo quem lh'o recitasse.»