XXXIV

*Perdida!…*

Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escripta com um despejo não vulgar em bachareis d'aquelles sitios. Aquelle homem, se tivesse nascido em terras onde ha a centralisação dos biltres, morria com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n'aquellas serras, onde não apégou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar para a corja dos birbantes das minhas novellas, o homem escorrega lá da serra no inferno, sem que a execração publica o cubra de maldições.

Repulso do coração da prima, que incessantemente se estava entregando á protecção dos santos, mudou o plano das insidias, incitando-a a procurar o marido em Lisboa, como ultimo desengano e final affronta. Convinha-lhe que a pobre mulher afogasse em lagrimas as ultimas e mais entranhadas raizes da sua pureza.

Em companhia de um velho inexperiente e credulo, o honrado Paulo de Figueirôa, que nunca saira das ruinas solarengas de Travanca, metteu-se D. Theodora a caminho de Lisboa. Deu um geito ás abas do chapéo que se entortara na canastra esquecida, lavou as fitas e a palha com chá da India, arejou o bafio do vestido de veludo que embolecera no inverno passado, e d'este geito entrajada se encaixotou na liteira, defronte do tio, que tinha a sinceridade de achar sua sobrinha muito bonita, vestida assim á moderna.

Nas differentes villas que atravessou até ao Porto, D. Theodora prendeu o espanto publico. Muita gente, aliás urbana, ria-se a cair. Onde parasse a liteira, o gentio fazia-lhe roda, e queria saber d'onde vinha aquella creatura incomparavel. Theodora, á entrada de Penafiel, a pedido respeitoso do liteireiro, tirou o chapéo e cobriu a cabeça com um lencinho de tres pontas. Ainda assim, o vestido de veludo côr de ginja dava nos olhos. Os padres de Penafiel, quando avistaram a liteira, cuidaram um momento que vinha alli alguma preeminencia ecclesiastica, como cardeal, ou coisa assim. A desharmonia do lencinho com o vestido offendia o bello ideal, e a symetria esthetica das damas da terra, as quaes ao verem-na saltar da liteira para o pateo da estalagem com o chapéo na mão, similhante a um cabaz de cavacas das Caldas, soltaram grande estrallada de riso. As meninas da estalagem, condoidas do aspecto doentio e honesto da viandante, informaram-se da qualidade da pessoa, e romperam no louvavel excesso de se insinuarem na fidalga, para lhe pedirem que se vestisse de outra maneira.

Accedeu sem repugnancia Theodora. As risadas francas do povo haviam-na amolecido. O velho tambem votou pela reforma dos trajos. E, como alli pernoitasse e deliberasse esperar o dia seguinte, deu tempo a que a provessem de chapéo rasoavel, e vestido com o competente paletó de seda, nas quaes coisas collaboraram todas as modistas da terra. Regenerada pelo vestido, parecia outra. As meninas pentearam-lhe os opulentos e negros cabellos a Stuart, segundo ellas disseram. Descobriram-lhe a fronte bem talhada. Deram-lhe umas lições de pisar e arregaçar-se, para a desacostumarem de ir com os pés sobre a orla do vestido, ou mostrar os calcanhares na andadura. O mirinaque foi um golpe certeiro no desaire da fidalga de Travanca. Ella mesma, olhando em si, dizia no secreto da sua consciencia illustrada em Penafiel:

—Eu assim estou melhor, a fallar verdade!

O tio Paulo torcia um pouco o nariz ao mirinaque, dizendo:

—Pareces-me uma boneca de roda de fogo! Tens aleijados os quadris, salvo tal logar! Mas, se é moda, deixa-te ir assim, menina até Lisboa; porém, quando entrares em casa, manda espetar esses arcos n'um pau, para espantar os pardaes da sementeira.