Como o velho fidalgo desejasse vêr o mar, resolveram ir para Lisboa no vapor. Theodora, quando principiou a enjoar, pediu os sacramentos; animada, porém com as risadas de outras senhoras, convenceu-se de que não era mortal a sua afflicção.

Hospedaram-se no cáes do Sodré. D. Theodora, não obstante a anciedade em que ia de avistar-se com o marido cuidou em reparar as forças com um dormir d'aquelles que a Providencia concede ás consciencias puras e ás pessoas que desembarcam enjoadas.

Paulo de Figueirôa saiu para a rua, no intento de informar-se da residencia de Calisto. Porém, como encontrasse na rua do Alecrim um macaco encavalgado n'um cão, que trotava a compasso de realejo, deixou-se ficar pasmado no espectaculo; depois, foi subindo até ao largo das Duas Egrejas, e quedou-se a ouvir um cego de oculos verdes que pregoava e referia o successo negro de um homem que matára seu avô. Terminava o cego, offerecendo a noticia impressa, onde tudo estava declarado. Comprou o fidalgo da Travanca a pavorosa noticia, e esteve largo tempo a soletral-a, sentado á porta da egreja do Loreto.

Terminada a leitura, o velho disse entre si:

—Isto é má terra! Tomara-me eu d'aqui para fóra!… Os netos matam os avôs!…

Chamou um gallego, que o guiou ao palacio das côrtes. Perguntou ao porteiro se estava lá dentro o deputado Calisto Eloy, morgado da Agra de Freimas.

—Não sei—disse mal encarado o funccionario.

—Eu sou tio d'elle; faça favor de lhe ir dizer que está aqui o tio
Paulo de Figueirôa.

—Não posso lá ir—volveu o porteiro, mais brando.—Peça áquelle sr. deputado, que ahi vem que lh'o diga.

Paulo dirigiu-se a um sujeito de exterior sacerdotal. Era o abbade de
Estevães.