Fartas vezes o advertira o abbade de Estevães da necessidade de reformar o vestido, e entrajar-se conforme o costume. Calisto respondia que não tinha que intender em costumes, que não fossem, em lusitanissima phrase, ruins costumes. Em quanto a vestiduras, dizia que o estofo das suas era portuguez como elle, e o feitio d'ellas era o que mais se aproximava das usanças dos seus maiores, os quaes andavam mais apontados no trajar do espirito que nas galanices do corpo. Salvo o abbade, ninguem se atrevia a contrarial-o, desde que a um joven deputado, que lhe observou o archaismo do trajo perguntou se elle era o alfaiate da camara, ou se as modas tinham fiscal subsidiado no parlamento.

Aconteceu ainda que outro deputado lhe analysasse galhofeiramente as botas aguçadas no bico. Sabia Calisto Eloy que este deputado era filho de um sujeito de Espozende que começara sua vida fazendo botas. Assim, pois, que o chocarreiro subiu da analyse das botas para a das polainas da calça, teve mão d'elle, dizendo-lhe: «agora, alto ahi! Em quanto o senhor escarneceu o feitio das minhas botas, estava no seu officio e no seu direito. Das botas acima, não. É o caso de eu lhe dizer como Apelles ao sapateiro, que lhe censurava a pintura: ne sutor ultra crepidam; o que em linguagem quer dizer: «não analyse o sapateiro acima da chinela.» Os circumstantes e a victima fizeram-se da côr do nariz de Calisto.

Estas passagens, significativas do salgado espirito do provinciano, sobre-doiravam a reputação que o trazia nas boas graças da fidalguia realista.

Sabia Calisto, como profundo genealogico, que existia illustrissima parentela sua em Lisboa; porém, pesavam graves motivos para que elle não quizesse recordar parentesco remoto com tal gente. Era o grão caso que, nos tempos do mestre d'Aviz estava na côrte um Martim Annes de Barbuda, da casa de Agra de Freimas, o qual conjurára com o Mestre na façanha do assassino do conde Andeiro. Até aqui havia muito para que o honrado portuguez se desvanecesse de tal parente. Martim Annes, todavia temeroso ou arrependido depois do feito, passou-se a Leonor Telles, e com ella e sua familia se foi a Hespanha, onde morreu, desprezado e amaldiçoado dos portuguezes. Na época de D. Duarte, os descendentes de Martim voltaram ao reino, e conseguiram perdão e posse dos seus haveres confiscados para a corôa. Eis aqui a razão do odio de Calisto á raça do máo portuguez.

Estava elle, um dia, folheando a reformação das leis de 1760 por Diogo de Pina, no intento de cravejar de erudição um projecto de lei sumptuaria, quando lhe annunciaram a visita do conde do Reguengo. Calisto estremeceu, e disse de si comsigo: «Vens ver o que eram e o que são os legitimos Barbudas de Agra de Freimas… Sê bem vindo!»

Entrou o conde, e disse com alegre alvoroço:

—Venho apertar nos braços um parente, que me honra tanto com a intelligencia, quanto seus avós me honraram com a lança.

Calisto permaneceu immovel na cadeira, e, tirando os oculos de prata, disse:

—Falta saber se meus avós se honraram dos avós de v. ex.^a

—Eu sou o conde do Reguengo—-disse o outro, attonito.