—Já sei. O conde do Reguengo é o decimo sexto varão de Martim Annes de
Barbuda?

—Sou eu mesmo.

Calisto ergueu-se, montou os oculos, foi mui depausa e a passo mesurado á estante dos seus livros, e tirou um in-folio. Voltou a sentar-se, mandou sentar o conde, abriu o livro e disse:

—Esta é a chronica dos reis, escripta por Duarte Nunes de Leão, e mandada publicar por D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Abro a pagina vinte e tres, e peço ao excellentissimo conde do Reguengo que leia.

O conde recebeu entre mãos a chronica, e leu o seguinte desde o paragrapho indigitado por Calisto: «As razões que ao Mestre moviam a apressar sua ida para fóra de Portugal, era conhecer a condição da Rainha, que, além do natural das mulheres, que é serem vingativas, ella o era mais que todas; mas, como mulher de grandes espiritos, e astuta que era, onde maior odio tinha, alli mostrava mais benevolencia, pelo que o Mestre tinha por mui suspeita a mostra de amizade que lhe fazia, e se temia mais d'ella, e tanto cria que lhe tinha maior odio, quanto mais affeiçoada era ella ao conde João Fernandes, de quem elle a apartou. Ajuntava-se a isto ter ella mandado chamar a El-Rei de Castella. Pelo que, sendo ella Rainha, e tendo o favor d'El-Rei presente, não confiava o Mestre que sua vida estava segura, pois em vida d'El-Rei D. Fernando, não sendo aggravada d'elle, o fez prender e o faria matar. Além d'isto, (as seguintes palavras estavam sublinhadas na chronica e emendadas com um proh dolor! da letra de Calisto) muitos dos que se a elle chegaram o deixavam e se passavam á Rainha, como fez Vasco Porcalho, e Martim Annes de Barbuda, commendadores de sua ordem, e Garcia Peres Craveiro de Alcantara, que para elle se viera.»

O conde entregou a chronica, e disse n'um tom de abborrido e confuso:

—E então?

—É v. ex.^a da progenie d'esse Barbuda infamado na pagina eterna de
Duarte Nunes?

—Sou—respondeu ufanamente.

—Pois vá em paz, que eu não procedo d'esses Barbudas. Eu sou o decimo sexto varão de Gonçalo Pero de Barbuda, que morreu em Aljubarrota, na ala dos namorados. Gonçalo era irmão de Martim: mas, ao entrar na batalha, pediu a D. João I que lhe legitimasse um filho natural, para que, no caso d'elle perecer, os filhos do irmão trêdo lhe não manchassem o solar. Gonçalo, morreu e D. João I cumpriu a vontade do portuguez de lei.