XII

*O anjo custodio*

Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e indireitar as tortuosidades da humana maldade!

Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. Catharina
Sarmento.

Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas, enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão.

O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito, relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas.

Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua portugueza, e crear alentos para atacar velhacos!

Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de
Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana.

—Quem é um ratazana?—pergunta D. Bruno.

É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome, porque v. ex.^a o não conhece.