Que é da civilisação d'esta miserrima e tão coitada terra? Quem nos lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai! A verdade ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia. As idéas entre nós estão como flores palpitantes no gomo nascente. Eu me esquivo, sr. presidente, o lavor de historiar as successivas phases que tem percorrido os methodos do aprisoamento. Urge primeiro pregoar a brados que se faz mister funda cauterisação na lei. O direito não se estudou ainda em Portugal. Pois que é o direito? No seu todo synthetico e como corpo doutrinal, o direito é a sciencia da condicionalidade ao fim do homem. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente, o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S. Miguel.[15]

Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu:

—Sr. presidente, n'este paiz não se attende ás bossas. Os legisladores não estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado. Se fordes a Windsor Castle e vos metterdes de gôrra com os guardas que mostram o castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel tendencia para a rapina: é uma pêga humana. Uma pêga humana, rapacissima, a mais não! Sr. presidente, do nosso rei D. Miguel se conta, que já mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma gallinha viva com um sacarolhas.[16]

Vozes: Á ordem! Á ordem!

O orador: Pois em que me transviei da ordem?

Uma voz: Não se diz no seio da representação nacional: o nosso rei D. Miguel.

O orador: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia.

Uma voz: Pois não faça obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia.

O orador: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do labio, e ao ponto me revêrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache toda a penalidade saírá vêsga, bestial, e infernalissima. É natural, sr. presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o calculo se empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene:

Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (vir), não a mulher (mulier), desde os vinte e um annos, ou época do predominio racional, até aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, não descendo sequer ás gradações principaes, que tornam o homo homem, o genero especie.»[17]