É certo, sr. presidente, que a femina toca o requinte da depravação, e chega a effeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardencias de sangue, para infundir pavor em peitos equanimes, porem, o mobil dos crimes seus d'ellas é outro: as faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução, e não ha ahi arcar com evidencia.

Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a justiça, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminoso aprisoado! Aos que já metteram rêlha e adubo no torrão do novo plantio, d'aqui me desentranho em louvores e muitos e francos e perennes.

Sr. presidente! Em quanto a cadeias, estamos no mesmo pé de idéas da inquisição! Que esterquilinios! que protervia! Eu quero, com o dr. Ayres, que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello da cabeça cortado á escovinha. Eu quero, com o doutor supracitado, que elle não fume, nem beba bebida fermentada. Água em abundancia, e mais nada potavel. Não quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigue patricio meu, e abalisado humanista, das cadeias saem delineamentos de assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos.

Lastimado isto, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais, é qual febricitante despedido do leito que como setta voada do arco, exaspera em barulho os males de toda a enfermaria.

Eu quero que o preso funcionne intellectivamente, e de lavores corporaes se não desquite. O homem sem instrucção obra instinctivamente, obra egoistamente, obra septicamente, se lhe escaceia religião. Ao preso lide-lhe a mão na tarefa, sim; mas lide-lhe tambem a cabeça na idéa. Inclinando rasoamento para isto, em todas as cadeias europeas lustram sciencias, pulem saber, e se amenisam instinctos. Veja-se o que diz o nunca de sobra invocado Ayres, honra e joia da cidade de Sá de Menezes, d'Andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver vagido nas faixas infantis. É mister que se entranhe o sacerdote no cancro das masmorras; mas o sacerdote atilado de engenho e todo impeccavel de costumes; e não padres cuja uncção sacrosanta se lhes convertesse no corpo em lascivos amavíos. Quem sabe ahi joeirar o optimo para capellães de prisões?

Depois quer-se um director, olho e norma. E tão boas partes se lhes requerem, que ainda scismando talhal-o um composto de virtudes, o não viriamos delinear senão escorço.

Deu a hora, sr. presidente. A materia é tal e tão rica, e para tamanho cavar n'ella, que se me confrange alma de lhe não dar largas. Aqui me fico, e do imo peito espido brado de louvor, que louvaminha não é, ao illustre membro d'esta camara que mandou para a mesa a proposta da reformação das cadeias. Bençãos lhe chovam, que assim, com valida mão, emborca a froixo urnas de balsamos sobre a esqualidez da mais ascosa ulcera da humanidade. (Prolongados applausos. O orador foi comprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se.)

Calisto Eloy contemplou-o com a fixidez de medico, que estuda os symptomas da demencia nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o abbade de Estevães, disse:

—Eu queria ver como este dr. Liborio tem a cabeça por dentro.

E rythmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou: