Quantos folgam fallar a prisca lingua
Qual Egas, qual fallou, Fuas Roupinho,
Qual esse conde antigo, que levára
A villa de Condeixa por compadre!
Mas como a fallam? Põem sua méestria
Em palavras sediças, termos velhos
Termos de saibo e mofo, que arrepiam
Os cabellos da gente…
Que dizes d'isto?
Como chamas a estes?…..
Que eu não acerto a dar-lhe um nome proprio.
Que bem quadre a tão rancidos guedelhas?
Quando estas coisas desvairadas vejo
Dão-me engulhos de riso, ou já bocejos,
Como arrepiques certos de gran fome![18]
XVI
*Quantum mutatus!…*
Á noite, no salão do desembargador Sarmento, soube-se que o morgado da Agra havia de orar no dia seguinte. Entre as pessoas alvoraçadas com a noticia, a mais empenhada em ouvil-o era D. Adelaide. Ao encontro de Calisto Eloy saiu ella pedindo-lhe com requebrada doçura, tres entradas na galeria das senhoras, para ella, irmã e pae.
—Já sou considerado senhora, amigo Barbuda!—ajuntou o velho—São as tristes honras da ancianidade!… E lá vou, lá vamos ouvil-o. Ha seis mezes que não saí de casa, nem saíria para ouvir o proprio Berryer ou Montalembert.
—Beijo-lhe as mãos pela cortezia, meu benigno amigo—disse Calisto; porém olhe que ha de chorar o tempo malbaratado. Eu não vou discorrer, nem cogitei ainda no que direi. Pedi a palavra, quando uma brava sandice me esfusiou nos tympanos, e estorcegou os nervos. Soou-me lá que o carrasco estava substituindo o anjo S. Miguel!… Ó meu caro desembargador, eu entro a desconfiar que a besta do apocalipse já tem tres pés bem ferrados no parlamento! Quando lá metter o quarto pé, a gente escorreita é posta fóra da sala a couces. Peço a vv. ex.^{as} perdão do pleismo do termo—disse Calisto voltando-se para as damas, que estavam examinando com espanto as transfiguradas vestes do morgado.—A boa policia, continuou elle, perde-se com a paciencia. Hei grão medo de volver-me ás minhas serras mais rudo do que vim.
—Está-se desmentindo v. ex.^a—acudiu D. Catharina graciosamente—com os trages cidadãos que apresenta hoje! Cuidavamos que havia jurado nunca reformar a sua toilette de 1820!
Calisto sorriu contrafeito, e sentiu-se algum tanto molestado no seu pundonor e seriedade. Como a causa da mudança do vestido era pouco menos de irrisoria, o homem foi logo castigado pela propria consciencia. A si lhe quiz parecer que era já ante si proprio, outro sujeito, e que os estranhos lhe liam no rosto o desaire inquietador. Então lhe foi desabafo o coração. Soccorreu-se d'elle para contradizer as reprimendas do juizo; e o coração, coadjuvado pelas maneiras e ditos affectuosos de Adelaide despontara as ferroadas do juizo.
Os visitantes habituaes do desembargador e as senhoras da casa notaram certa mudança nos modos e linguagem de Calisto. Dir-se-ia que o paletó e as pantalonas lhe tolhiam a liberdade dos movimentos, e aquella assim rude, que sympathica espontaneidade da expressão.
Authorisados philosophos e christãos disseram que o vestido actua imperiosamente sobre o moral do individuo. Nas paginas immorredouras de fr. Luiz de Sousa está confirmado isto. «É nossa natureza muito amiga de si (diz o historiador do santo arcebispo) e experiencia nos ensina que não ha nenhuma tão mortificada, que deixe de mostrar algum alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se ou seja pela novidade ou pela honra, e gasalhado que recebe o corpo. Até os pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»[19]