XVII

*In Liborium*

Estavam cheias as galerias da camara.

Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento. A pedido de Calisto Eloy, fôra o abbade de Estevães levar as entradas ao magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras á galeria.

O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura, algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins, que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectidão de juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins.

Não dírei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era grande parte n'este concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrára fama de coisa extravagante e impropria d'esta geração.

Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fôra vestir-se de calça mais cordata em côr e feitio. Não me acoimem de archivista de insignificancias. Este pormenor das calças prende mui intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquella alma vae-se transformando á proporção da roupa. Assim como o leitor, á medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras á mulher querida, Calisto, em vez d'isso, muda de calças.

As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintára, desgostaram-se de vêl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos representantes do paiz.

Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o presidente lhe deu a palavra.

Cessou o reboliço e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o deputado por Miranda, começou d'este theor: