—Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, ácerca d'aquella famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle pedaço de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje.
Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Camões, despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobresinha, trajada por mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha fica núa, e nós a córarmos de vergonha por amor d'ella.
É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a patria a pique?
Á hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em portuguez de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões, Vasconcellos e Mouras, que nos vendem?
Vozes: Á ordem!
O orador: É contra o regimento d'esta casa, repetir o que está dito na historia, sr. presidente?
O presidente: Sem offensa de particulares.
O orador: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa está Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e…
Vozes: Á ordem!
O orador: Pois então eu calo-me, se offendo estes personagens a quem me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inoffensivas, no entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui similhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem!